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Jornalista nascido em Santos - safra 1968 - e radicado em São Paulo desde 1985. Twitter: @pandinigp. "A única diferença entre um louco e eu é que eu não sou louco." (Salvador Dalí)

quinta-feira, 12 de janeiro de 2012

TV NO BRASIL, ONTEM E HOJE


A história a seguir foi publicada no livro "Gloria in Excelsior - Ascensão, Apogeu e Queda do Maior Sucesso da Televisão Brasileira", de Álvaro de Moya. A Excelsior (canal 9 em São Paulo), para quem não sabe, foi (segundo quem viveu a época) a melhor emissora de TV do Brasil em todos os tempos. Existiu entre 1960 e 1970.

Naquela época, a televisão ainda era um eletrodoméstico "para ricos". Mario Wallace Simonsen, grande exportador de café, proprietário da companhia aérea Panair do Brasil e também da Excelsior, foi um dos únicos proprietários de meio de comunicação relevante e de alcance "nacional" a ficar ao lado do presidente João Goulart até o fim - ou seja, até o golpe de estado desfechado por militares e civis em primeiro de abril de 1964. O outro foi Samuel Wainer, do jornal Última Hora. Em menos de um ano, Simonsen teve cassadas a concessão para comercializar café e a licença de operação da Panair. A Excelsior foi sendo estrangulada lentamente, até sair do ar.

Do que eu falava mesmo? Ah, sim. No livro, Álvaro de Moya menciona os programas infantis da Excelsior. E conta uma historinha:

Uma professora de vanguarda, Arlete Pacheco, dona de uma escolinha infantil, comandava outro programa com ninguém menos que o genial humorista Dom José Cavaca. Em pleno Natal, fizeram um programa em que explicavam para as crianças que Papai Noel não existia e elas deveriam ser gratas aos seus pais, que se esforçavam para dar presentes e manter uma tradição. Não é preciso dizer que choveram protestos contra o programa infantil. Mas a direção apoiou a dupla dinâmica.

Isto aconteceu, repito, no início da década de 1960. Creio que havia muita porcaria na TV naquela época também. Seja como for, na década de 1970, quando eu era criança, assisti programas como Vila Sésamo e Sítio do Pica-Pau Amarelo. A partir dos anos 80, a TV brasileira passou a seviciar cruelmente as crianças apresentando lixos como Xuxa, Angélica e outros programas do mesmo quilate. A TV se transformou (com raras e honrosas exceções) em uma lobotomia que não deixa cicatrizes no corpo, mas na alma. Adultos (e, pior, crianças também) perdem tempo assistindo os chamados "reality shows", cujos nomes me recuso a reproduzir para evitar qualquer forma de propagação e contágio dessa praga que assola as telas. São programas que não servem para nada, a não ser expôr, celebrar, incentivar e até mesmo premiar a estupidez humana. Os donos da "grande mídia" tentam justificar que o público quer lixo, gosta de lixo e só aprecia consumir lixo. Apenas comprovam na prática a frase de Joseph Pulitzer: "Com o tempo, uma imprensa cínica, mercenária, demagógica e corrupta formará um público tão vil como ela mesma."


É por coisas como essas que muitas vezes eu me sinto completamente deslocado neste mundo.

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3 Comentários:

Blogger Ivam Campos disse...

Razão tinha o Lula, que naquele debate em 1989 chamou o programa da Xuxa de lixo.

Infelizmente, as crianças não recebem praticamente nada de educativo nos infantis de hoje. As emissoras praticamente nem se preocupam com isso.

Por isso que tenho saudades do "O Mundo de Beakman", disparado o melhor programa infantil que assisti na TV brasileira.

sexta-feira, 13 de janeiro de 2012 17h15min00s BRST  
Blogger André disse...

Realmente é triste perceber que a televisão brasileira decaiu tanto. Mais triste ainda é saber que dificilmente haverá um retrocesso nesta queda vertiginosa. Afinal, a todo momento surgem novos lixos televisivos que estimulam a população a continuar cada vez mais "apática", para não mencionar outra palavra.

terça-feira, 17 de janeiro de 2012 10h22min00s BRST  
Blogger Hugo Becker disse...

Olá, Pandini! Depois de algum tempo, estou de volta.

Belo texto. Me interesso demais pelo assunto. Sou da geração 80, e sempre destaquei o fato de que até a primeira metade da década, era notável a preocupação em ter uma programação de mídia voltada inteiramente para as crianças. O público infantil gerava celebridades. Talvez iniciativas como Plunct-Plact-Zum, Trem da Alegria, etc, sejam ruins em comparação às iniciativas da década anterior, mas ainda representavam algo de razoável qualidade para o público infantil.

Mesmo na segunda metade da década de 80 e começo da de 90, a TV Cultura viveu uma espécie de auge com uma lista de programas que eram verdadeiros hits, ao contrário de hoje, quando os sucessos infantis são vazios e passam despercebidos para a imensa maioria dos adultos.

Me explicaram uma vez que, por causa do fim da ditadura militar, havia uma preocupação em formar uma nova geração com novas referências, outros valores, etc. Algo baseado no construtivismo. Achei uma explicação vaga e poética demais pra ser real, mas faz certo sentido.

Hoje, o que vivemos é um nada. Um completo nada. Em praticamente todos os sentidos, não apenas para as crianças.

Abraço

terça-feira, 17 de janeiro de 2012 21h34min00s BRST  

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