Luiz Pereira Bueno e o Porsche 908/2 em plena luta contra o Berta de Luis di Palma em uma corrida na Argentina em 1971. Uma disputa que tornou Luizinho conhecido e admirado na Argentina.
Com o March 711 no GP do Brasil de 1972, extracampeonato: sexto lugar e o recorde do anel externo de Interlagos, que nunca mais seria superado.
Com o Surtees TS9B em seu único GP oficial, o do Brasil de 1973.
A vida nos reserva momentos surpreendentes. Por conta de um exame médico e duas reuniões, passei toda a manhã desta terça-feira, 8 de fevereiro, sem tocar no computador. Já eram quase duas horas da tarde quando, almoçando com o amigo Heraldo Galan, tocou meu celular. Era meu filho
Gabriel e imaginei que aquele seria um telefonema rotineiro, igual a tantos que ele me faz quando volta da escola. Infelizmente, não era.
- Papai, tenho uma notícia triste para você. O Luiz Pereira Bueno morreu.
É inevitável: por mais que você saiba que uma pessoa está muito doente e tem poucas chances de sobrevivência, receber a notícia da morte tira o chão de baixo dos pés. No fundo, acreditamos sempre em um milagre. Só que milagres, infelizmente, não acontecem. E meu filho de dez anos, que só sabia das façanhas de Luizinho pelos meus relatos, havia desenvolvido por ele a mesma admiração que eu, a ponto de fazer questão de me ligar para falar de seu falecimento.
Eu nunca cheguei a ver Luizinho correr. Comecei a acompanhar automobilismo em 1978, quando ele já estava semi-aposentado. Havia feito naquele ano uma corrida com um Chevrolet Opala da Divisão 1. Para um piloto com dois GPs de F1 e temporadas inteiras ao volante de carros velozes como Porsche 908, Bino, Opala e Ford Maverick de Divisão 3 e o protótipo Berta-Ford de Divisão 4, um carro de Divisão 1 parecia lento demais. Em 1978, o automobilismo nacional se tornara pequeno para um piloto do gabarito de Luizinho. Ele já era uma lenda e, por meio da leitura de velhas revistas, conheci a carreira vitoriosa na equipe Willys na década de 1960, na Fórmula Ford inglesa e nas corridas nacionais da primeira metade da década de 1970.
Luizinho voltaria a correr em outras duas oportunidades. Em 1982, iniciou a temporada como chefe da equipe Basf na Stock Car. O dono da equipe era Mike Mercede, que pilotava o carro número 60. O outro, número 90, foi entregue a Hélio “Horácio” Matheus. Por razões que já foram explicadas
aqui, os carros da Basf andavam sempre nos últimos lugares. Depois de três corridas, “Horácio” saiu da equipe e nenhum outro piloto se interessou em substitui-lo. Para cumprir o contrato com o patrocinador, Luizinho assumiu o cockpit do Opala 90 – e conseguiu o melhor resultado do time: um nono lugar em Tarumã, logo à frente de Mike. Em 1984, Luizinho fez sua última corrida: os 1000 Km de Brasília, pilotando um Ford Escort da equipe de Luiz Antônio Greco – seu chefe nas equipes Willys e Ford até 1970. Terminou em nono lugar, dividindo o carro com Lian Duarte (seu parceiro nos primeiros tempos da Equipe Z) e Fábio Greco.
Passaram-se longos anos sem que eu tivesse notícias dele. Somente muito tempo depois de virar jornalista tive a chance de conversar com Luizinho. Foi em 2002, para escrever um artigo sobre o Porsche 908/2 para a Clubnews, revista do Porsche Club (e que pode ser lido
aqui). A conversa, por telefone, superou todas as expectativas que eu tinha em relação ao ídolo. Memória aguçadíssima, educação digna de um lorde e, o que mais chamou minha atenção naquele dia, uma cabeça totalmente aberta à evolução do automobilismo.
Não faltaram boas histórias, claro. Algumas eu publiquei na Porsche Club e outras ele contou no livro “Paixão e Técnica ao Volante” – a biografia de Luizinho, lançada no final de 2010. Entre outras passagens, Luizinho falou do GP do Brasil de 1973. Nos treinos, ele relatou a John Surtees que o TS9B estava inguiável até mesmo nas retas. Alguma discussão se seguiu, mas Surtees finalmente constatou que um triângulo de suspensão estava montado em posição invertida e que as rodas estavam totalmente desalinhadas. “O Surtees deu uma bronca tão dura no mecânico que fiquei até constrangido”, contou. Só então ele pôde começar a explorar os limites do carro, mas logo surgiu outro problema: “O motor caía muito de giro quando eu engatava a segunda marcha e ‘dava um berro’ quando eu punha quarta. Intuí que as engrenagens estavam invertidas e fiz um teste invertendo os engates dessas duas marchas. Deu certo e passei o resto do final de semana guiando assim. Como eu já havia encontrado a ‘minha’ solução para o problema, preferi nem reclamar com o Surtees. Eu não queria que o mecânico levasse outra bronca daquelas.”
A certa altura, perguntei-lhe sobre a tecnologia dos carros da F1 da década de 2000, com a inevitável consideração sobre o quanto ela diminuía a importância do piloto na “tocada” da máquina.
- Eu não penso assim – afirmou com toda a educação, em um tom quase de desculpas por discordar do interlocutor. – Mudaram os meios, mas atingir o limite de um carro de corrida ainda é e sempre vai ser uma arte. Com a potência e a aderência que os carros de F1 têm hoje, seria humanamente impossível prescindir da tecnologia atual. O talento sempre vai fazer diferença. Os pilotos atuais são excepcionais.
Uma resposta simples, serena e fundamentada, que mudou para sempre a minha maneira de ver certas coisas. Até então, eu tendia a entrar sem muita análise crítica naquele ranço que vários pilotos “da antiga” costumavam manifestar – de que tudo era melhor no tempo deles e que pilotar um carro de corrida foi se tornando cada vez mais fácil ao longo dos anos.
Conheci Luiz Pereira Bueno pessoalmente em 2003, durante o lançamento do livro escrito por Paulo Scali sobre o autódromo de Interlagos. Ele se lembrava de nossa conversa e havia gostado muito da reportagem publicada na revista do Porsche Club. O encontro pessoal confirmou todas as boas impressões que eu tivera dele.
Durante o Renault Road Show (realizado em São Paulo em novembro de 2008, quando Nelsinho Piquet pilotou um F1 na avenida em frente ao parque do Ibirapuera), pude apresentar Luizinho a Gabriel. Meu filho, então com oito anos de idade, vivia um momento especialíssimo: era o segundo piloto de F1 que ele conhecia naquele dia – o primeiro havia sido o próprio Nelsinho, poucas horas antes. É dessa ocasião o registro feito abaixo. Encontrei Luizinho outras vezes até que, no começo de 2010, surgiu a notícia de que ele estava com câncer no pulmão - a doença que o matou aos 74 anos.
Bom descanso, campeão.
Os blogueiros e o ídolo durante o Renault Speed Show, em novembro de 2008.
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