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Jornalista nascido em Santos - safra 1968 - e radicado em São Paulo desde 1985. Twitter: @pandinigp. "A única diferença entre um louco e eu é que eu não sou louco." (Salvador Dalí)

terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

LUIZ PEREIRA BUENO (16/01/1937-08/02/2011)

Luiz Pereira Bueno e o Porsche 908/2 em plena luta contra o Berta de Luis di Palma em uma corrida na Argentina em 1971. Uma disputa que tornou Luizinho conhecido e admirado na Argentina.


Com o March 711 no GP do Brasil de 1972, extracampeonato: sexto lugar e o recorde do anel externo de Interlagos, que nunca mais seria superado.


Com o Surtees TS9B em seu único GP oficial, o do Brasil de 1973. 


A vida nos reserva momentos surpreendentes. Por conta de um exame médico e duas reuniões, passei toda a manhã desta terça-feira, 8 de fevereiro, sem tocar no computador. Já eram quase duas horas da tarde quando, almoçando com o amigo Heraldo Galan, tocou meu celular. Era meu filho Gabriel e imaginei que aquele seria um telefonema rotineiro, igual a tantos que ele me faz quando volta da escola. Infelizmente, não era.

- Papai, tenho uma notícia triste para você. O Luiz Pereira Bueno morreu.

É inevitável: por mais que você saiba que uma pessoa está muito doente e tem poucas chances de sobrevivência, receber a notícia da morte tira o chão de baixo dos pés. No fundo, acreditamos sempre em um milagre. Só que milagres, infelizmente, não acontecem. E meu filho de dez anos, que só sabia das façanhas de Luizinho pelos meus relatos, havia desenvolvido por ele a mesma admiração que eu, a ponto de fazer questão de me ligar para falar de seu falecimento.

Eu nunca cheguei a ver Luizinho correr. Comecei a acompanhar automobilismo em 1978, quando ele já estava semi-aposentado. Havia feito naquele ano uma corrida com um Chevrolet Opala da Divisão 1. Para um piloto com dois GPs de F1 e temporadas inteiras ao volante de carros velozes como Porsche 908, Bino, Opala e Ford Maverick de Divisão 3 e o protótipo Berta-Ford de Divisão 4, um carro de Divisão 1 parecia lento demais. Em 1978, o automobilismo nacional se tornara pequeno para um piloto do gabarito de Luizinho. Ele já era uma lenda e, por meio da leitura de velhas revistas, conheci a carreira vitoriosa na equipe Willys na década de 1960, na Fórmula Ford inglesa e nas corridas nacionais da primeira metade da década de 1970.

Luizinho voltaria a correr em outras duas oportunidades. Em 1982, iniciou a temporada como chefe da equipe Basf na Stock Car. O dono da equipe era Mike Mercede, que pilotava o carro número 60. O outro, número 90, foi entregue a Hélio “Horácio” Matheus. Por razões que já foram explicadas aqui, os carros da Basf andavam sempre nos últimos lugares. Depois de três corridas, “Horácio” saiu da equipe e nenhum outro piloto se interessou em substitui-lo. Para cumprir o contrato com o patrocinador, Luizinho assumiu o cockpit do Opala 90 – e conseguiu o melhor resultado do time: um nono lugar em Tarumã, logo à frente de Mike. Em 1984, Luizinho fez sua última corrida: os 1000 Km de Brasília, pilotando um Ford Escort da equipe de Luiz Antônio Greco – seu chefe nas equipes Willys e Ford até 1970. Terminou em nono lugar, dividindo o carro com Lian Duarte (seu parceiro nos primeiros tempos da Equipe Z) e Fábio Greco.

Passaram-se longos anos sem que eu tivesse notícias dele. Somente muito tempo depois de virar jornalista tive a chance de conversar com Luizinho. Foi em 2002, para escrever um artigo sobre o Porsche 908/2 para a Clubnews, revista do Porsche Club (e que pode ser lido aqui). A conversa, por telefone, superou todas as expectativas que eu tinha em relação ao ídolo. Memória aguçadíssima, educação digna de um lorde e, o que mais chamou minha atenção naquele dia, uma cabeça totalmente aberta à evolução do automobilismo.

Não faltaram boas histórias, claro. Algumas eu publiquei na Porsche Club e outras ele contou no livro “Paixão e Técnica ao Volante” – a biografia de Luizinho, lançada no final de 2010. Entre outras passagens, Luizinho falou do GP do Brasil de 1973. Nos treinos, ele relatou a John Surtees que o TS9B estava inguiável até mesmo nas retas. Alguma discussão se seguiu, mas Surtees finalmente constatou que um triângulo de suspensão estava montado em posição invertida e que as rodas estavam totalmente desalinhadas. “O Surtees deu uma bronca tão dura no mecânico que fiquei até constrangido”, contou. Só então ele pôde começar a explorar os limites do carro, mas logo surgiu outro problema: “O motor caía muito de giro quando eu engatava a segunda marcha e ‘dava um berro’ quando eu punha quarta. Intuí que as engrenagens estavam invertidas e fiz um teste invertendo os engates dessas duas marchas. Deu certo e passei o resto do final de semana guiando assim. Como eu já havia encontrado a ‘minha’ solução para o problema, preferi nem reclamar com o Surtees. Eu não queria que o mecânico levasse outra bronca daquelas.”

A certa altura, perguntei-lhe sobre a tecnologia dos carros da F1 da década de 2000, com a inevitável consideração sobre o quanto ela diminuía a importância do piloto na “tocada” da máquina.

- Eu não penso assim – afirmou com toda a educação, em um tom quase de desculpas por discordar do interlocutor. – Mudaram os meios, mas atingir o limite de um carro de corrida ainda é e sempre vai ser uma arte. Com a potência e a aderência que os carros de F1 têm hoje, seria humanamente impossível prescindir da tecnologia atual. O talento sempre vai fazer diferença. Os pilotos atuais são excepcionais.

Uma resposta simples, serena e fundamentada, que mudou para sempre a minha maneira de ver certas coisas. Até então, eu tendia a entrar sem muita análise crítica naquele ranço que vários pilotos “da antiga” costumavam manifestar – de que tudo era melhor no tempo deles e que pilotar um carro de corrida foi se tornando cada vez mais fácil ao longo dos anos.

Conheci Luiz Pereira Bueno pessoalmente em 2003, durante o lançamento do livro escrito por Paulo Scali sobre o autódromo de Interlagos. Ele se lembrava de nossa conversa e havia gostado muito da reportagem publicada na revista do Porsche Club. O encontro pessoal confirmou todas as boas impressões que eu tivera dele.

Durante o Renault Road Show (realizado em São Paulo em novembro de 2008, quando Nelsinho Piquet pilotou um F1 na avenida em frente ao parque do Ibirapuera), pude apresentar Luizinho a Gabriel. Meu filho, então com oito anos de idade, vivia um momento especialíssimo: era o segundo piloto de F1 que ele conhecia naquele dia – o primeiro havia sido o próprio Nelsinho, poucas horas antes. É dessa ocasião o registro feito abaixo. Encontrei Luizinho outras vezes até que, no começo de 2010, surgiu a notícia de que ele estava com câncer no pulmão - a doença que o matou aos 74 anos.

Bom descanso, campeão.

Os blogueiros e o ídolo durante o Renault Speed Show, em novembro de 2008.

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3 Comentários:

Blogger Ron Groo disse...

Não gosto de perder nem peso, quanto mais referencia... Dia muito triste.

terça-feira, 8 de fevereiro de 2011 19h29min00s BRST  
Blogger regi nat rock disse...

qdo vou a enterros, é por conta dos que ficaram. Nesse caso, eu fui para honrar um amigo querido que se foi. Da mesma forma que o bando que lá esteve. Emersom Wilson, Lian, Chiquinho, Paulão e o filho, Alemão, Alex, Paulo Loco, Crispim, Bird...Nossa uma lista gigantesca de pessoas Todos muito tristes, mas contando pequenos detalhes do Luizinho. Esqueci um monte deles, mas não importa. Estiveram lá. Notavel foi a não presença de outra lista interminavel dentre esportistas, jornalistas e mais um monte de 'istas' . Nós fizemos a nossa parte. Fomos nos despedir de um amigo.

terça-feira, 8 de fevereiro de 2011 21h09min00s BRST  
Blogger fernando disse...

Um pouquinho consola saber que, nos últimos tempos, ele foi reverenciado por suas tremendas habilidades nas pistas, por muita gente no ambiente do automobilismo esportivo, especialmente quando aparecia lá no Templo.

Pandini,imagine só, eu tive o privilégio de, na primeiríssima vez que fui a Interlagos ver uma corrida, levado por meu pai(creio que após alguma insistência minha, pois já buscava por notícias de corridas em jornal e revistas), justamente ser uma prova vencida por Luisinho pilotando nada menos que o 908 da Hollywood (graças ao trabalho preciso e precioso de registro histórico do Napoleão Ribeiro, deduzi que foi uma de duas etapas disputadas em Interlagos, no ano de 1972, do campeonato brasileiro de 'viaturas esporte'). Eu tinha 10 anos de idade, mas reconheci 'a viatura' de algum anúncio da marca de cigarros, que fazia uso frequente, e caprichado, de imagens dos carros da equipe.
Mais tarde tive a chance de ver Luisinho pilotando outros dois emblemáticos carros também da Hollywood: o Maverick da divisão 3 e o protótipo construído por Oreste Berta, da divisão 4.

Vendo em retrospecto, é fantástico ele ter pilotado e vencido a bordo desses três carros daquela tremenda equipe. Pra mim, aqueles meados dos anos 70 foram 'os' anos dourados das corridas em Interlagos; é um clichê, eu sei, mas é o registro que terei do lugar e da época, pra toda vida.

E ao menos, tive a chance de fotografá-lo ao volante do Maverick, lindamente restaurado pelo Trevisan, em Interlagos numa volta pré-largada de um 500 Kms, creio que na edição de 2003.

Que seu espírito encontre descanso e plenitude - e tomara, por que não, que possa nos surpreender com uma visita extra-sensorial lá no Templo.

fernando amaral

sábado, 12 de fevereiro de 2011 04h15min00s BRST  

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