O pódio de hoje e o documento da FIA de 2002, em que a entidade reconhece o direito das equipes de escolher seu vencedor (clique para ampliar).
Vou remar contra a maré. De novo.
Não vou me juntar ao coro dos indignados com a ordem dada pela Ferrari para Felipe Massa ceder a Fernando Alonso a vitória no GP da Alemanha de 2010. Assim como não me juntei aos indignados com a ordem dada a Rubens Barrichello para ceder a vitória a Michael Schumacher no GP da Áustria de 2002. Por isso, as linhas seguintes reproduzem, em boa parte, pensamentos que eu já havia externado naquele distante maio de 2002.
Talvez falte à mídia automobilística enfatizar o fato de que pilotos profissionais são pagos para defender o interesse de suas equipes – uma realidade oposta à percepção de 99% do público. O erro de Massa (e, anos atrás, de Barrichello) não foi o de aceitar o posto de segundo piloto, e sim o de transmitir ao público a certeza de que iriam disputar títulos e vitórias em igualdade de condições com companheiros de equipe como Schumacher e Alonso. Em algum momento, viria à tona a real situação de cada um dentro da Ferrari. Como ela não foi condizente com as expectativas criadas, gerou-se uma frustração que poderia ser evitada com uma simples atitude: abrir o jogo e explicar como as coisas estavam estabelecidas,
em vez de negar o óbvio.
A contratação de Alonso pela Ferrari foi precedida pela concretização do patrocínio do banco Santander (espanhol como Alonso, é bom lembrar) à equipe italiana. Para manter Massa e contar com Alonso em 2010, a Ferrari optou por rescindir o contrato de Kimi Räikkönen (seu mais recente campeão mundial), que iria até o fim da atual temporada. Nesse panorama, seria muita ingenuidade acreditar que Massa teria na Ferrari o mesmo status que Alonso, unicamente por “já ser da casa” e “ser adorado pela equipe”.
A todos os que se lembram do “caso Áustria 2002”, sugiro a leitura do documento reproduzido neste post, com data de 26 de junho de 2002. Nele, a FIA informa seu veredito e, no parágrafo destacado por mim em vermelho, afirma reconhecer “o longamente estabelecido e tradicional direito de uma equipe decretar a ordem de chegada de seus pilotos naquela que acreditar ser mais interessante em sua tentativa de vencer os dois campeonatos mundiais” (pilotos e construtores). Mais abaixo, lê-se que a punição à Ferrari foi dada porque os pilotos “não respeitaram o procedimento do pódio”. Foi este, e não o jogo de equipe, o pretexto encontrado pela FIA para multar a Ferrari em US$ 1 milhão e, assim, dar alguma satisfação ao público.
Depois disso, a FIA estabeleceu por regulamento que as ordens de equipe estavam proibidas. Mas todos sabem que elas continuaram a ser dadas por meio de códigos como “economize combustível”, “economize pneus”, “você tem problemas de motor e precisa diminuir o ritmo”. Em outros casos, passaram a ser colocadas em prática na forma de pit stops feitos à conveniência de momento de cada equipe. As ordens continuam acontecendo à vista de todos – só não podem ser caracterizadas como tal.
Essa hipocrisia acabou proporcionando situações estapafúrdias como a da Red Bull na Turquia. Todos se lembram que Mark Webber e Sebatian Vettel estavam sendo acossados por Lewis Hamilton e Jenson Button. A Red Bull avisou a Vettel para acelerar o máximo possível e tentar ultrapassar Webber mas, por medo de infringir a subjetiva proibição de ordens de equipe, temeu sugerir ao australiano que diminuísse o ritmo ou mesmo cedesse a posição ao companheiro como parte de uma estratégia para que os dois se distanciassem de Hamilton e Button. O resultado foi um mal-entendido que culminou na colisão dos pilotos da Red Bull e na entrega, de bandeja, dos dois primeiros lugares à dupla da McLaren.
O ridículo de hoje foi o teatrinho da equipe e de Alonso (“Não sei o que aconteceu com Massa, mas ele ficou lento e vi uma oportunidade de fazer a ultrapassagem”) para esconder o jogo de equipe. Patético, concordo. Mas necessário para não infringir o regulamento de merda que a própria FIA criou - e que tornou o jogo de equipe admitido, desde que sub-reptício.
Bons amigos e colegas meus criticaram asperamente a atitude da Ferrari, tachando-a de anti-desportiva e outros adjetivos semelhantes. Aliás, boa parte das críticas foi feita à “maneira” como a Ferrari deu as ordens. Fiquei com a impressão de que, se as ordens forem sutis e teatralmente executadas de modo a não despertar suspeitas, elas passariam a ser admissíveis. Eu penso o contrário: que sejam dadas explicitamente, sem margem para dúvidas, como acontecia em outros tempos. Sem qualquer intenção de criticar ninguém, fico surpreso ao ver pessoas que vivem e acompanham corridas há décadas, e que sabem melhor que eu de tudo o que escrevi acima, ainda pensarem em automobilismo unicamente como “esporte”.
Em competições dos ditos “altos níveis” como a Fórmula 1, a Copa do Mundo e os Jogos Olímpicos, o jogo é duro e os interesses políticos e financeiros são muito grandes. Achar que ambientes assim são propícios para a disseminação de exemplos de lisura e boa conduta é o mesmo que querer encontrar açúcar na água do mar.
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