PandiniGP

Automobilismo, motociclismo, música, política, cinema, história... Este é um espaço para compartilhar ideias, opiniões, imagens, sonhos e loucuras. Divirta-se!

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Jornalista nascido em Santos - safra 1968 - e radicado em São Paulo desde 1985. Twitter: @pandinigp. "A única diferença entre um louco e eu é que eu não sou louco." (Salvador Dalí)

sexta-feira, 30 de abril de 2010

PAUSA PARA MEDITAÇÃO (E UM TEXTO ALTAMENTE RECOMENDÁVEL)

Calma, amigos. O blogue está há duas semanas sem atualização, mas eu continuo vivo e gozando de boa saúde. O "abandono" é resultante apenas de excesso de trabalho e, admito, uma certa falta de inspiração para escrever. Não é fácil ter idéias brilhantes e energia para colocá-las em prática quando as tarefas necessárias para assegurar a sobrevivência demandam tempo extra. Isso faz com que as horas vagas (cada vez mais raras) sejam aproveitadas para curtir o filhote, viajar, aproveitar a vida ou simplesmente dar uma pausa para, por exemplo, ouvir música enquanto se degusta um charuto e um uísque ao ar livre em uma noite estrelada.
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A inspiração está em rotação baixa, mas continuo lendo os saites e blogues listados aí à esquerda. O assunto predominante hoje é a presença do presidente Luiz Inácio Lula da Silva no topo de uma lista dos líderes mais influentes do mundo entre os escolhidos pela revista estadunidense Time - apenas mais uma entre as distinções elogiosas que Lula recebeu de organismos internacionais nos últimos meses. A "grande mídia" e a oposição ao atual governo tentaram desqualificar a escolha da "Time" de modo patético. E, mais uma vez, deu tiros no pé. Abriu-se espaço para figuras absolutamente desimportantes como Paulo Bornhausen, deputado do ex-PFL, atual DEM, escancarar sua falta de argumentos com afirmações do naipe de "a revista ficou louca ou ganhou patrocínio de alguma estatal brasileira". Sem comentários.
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Para encerrar a semana, reproduzo o texto abaixo. Foi copiado do Tijolaço, blog do deputado federal Brizola Neto (PDT-RJ), que só não terá meu voto em outubro porque sou eleitor de São Paulo. O texto expõe com perfeição o atual sentimento daqueles que, como eu, atravessaram a década de 1990 sendo chamados de "dinossauros", "antiquados" e adjetivos semelhantes por pessoas que, com boa ou má intenção, passaram a repetir o discurso monocórdio da "grande mídia" e ridicularizar qualquer manifestação favorável a valores que se opusessem ao "mercado".
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Com vocês, o deputado Brizola Neto. Para ler no original: http://www.tijolaco.com/?p=13688
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O fio da história na ponta de nossos dedos
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Deformações ideológicas não se acabam do dia para a noite.Vivemos, mais de uma década, sob a ditadura do pensamento único, do “politicamente correto”.A paixão política passou a ser um “defeito”, aliás quase todas as paixões passaram a ser um defeito, um “fanatismo”.
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Claro que não se está louvando aqui a irracionalidade, o sectarismo, a imbecilidade.Mas a história humana é feita de paixão.
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Ou será que não foi preciso paixão para os homens que deram a vida nas barricadas da Revolução Francesa, para que aquele país e o mundo pudessem gritar “Liberdade, Igualdade, Fraternidade”?
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Faltou paixão, aqui, aos Henriques Dias, negros, aos Felipes Camarão, índios, para lutarem em Guararapes ao lado do português João Fernandes, fundando o sentimento nacional?
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Ou a Tiradentes, para enfrentar o cadafalso? A Getúlio, para a bala no coração?
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O neoliberalismo pretendeu reduzir o desejo humano a um “negócio”, material ou sentimental, que deve trazer vantagens. Era a “lei de mercado” transposta para a existência do ser humano. Um verso de uma música dos Titãs, fora do contexto, servia de “hino” desta anulação da paixão: “eu só quero saber do que pode dar certo, não tenho tempo a perder”.
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A história das lutas sociais, das lutas que ao longo de milhares de anos, homens e mulheres de todas as partes do globo terrestre fizeram em busca da liberdade, da justiça, da dignidade, não importava muito. Era tempo perdido. Era o passado, e o passado, passou. Era “o fim da história” que o tal Francis Fukuyama, aquele historiador a quem a história já quase esqueceu, proclamava, sob o aplauso dos medíocres.
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Virou algo “arcaico”, “jurássico”, anacrônico ter paixão pelo Brasil e pelo povo brasileiro.Importante era ser certinho, arrumadinho, “preparadinho” e fazer “o dever de casa” direitinho, como os nossos comentaristas políticos e econômicos pregavam nos jornais e na televisão. Nenhuma atenção era dada a que este “dever de casa” vinha de professores de fora, que queriam ensinar-nos a ser como convinha a eles, não a nós mesmos.
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Mas a história não acabou.
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A realidade, o processo social, retornou, com suas voltas caprichosas e tantas vezes incríveis, o fio desta história.
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Lula, o sindicalista que surgiu condenando Vargas, virou o estadista que repetiu seu gesto de banhar de petróleo sua mão e, mais ainda, praticou uma política de composição, tolerância e alianças como a do velho Getúlio, a quem chamavam de “pai dos pobres e mãe dos ricos”. Embora os pobres tenham ganho muito no Governo Lula, a verdade é que os ricos não perderam, não é? Está aí o lucro dos bancos que não nos deixa enganados.
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Apesar disso, porém, como a Getúlio, a Jango, a Brizola, os ricos o odeiam. Odeiam não apenas porque ele vem da pobreza. Odeiam porque ele não a abandonou, não lhe virou as costas. As elites brasileiras só admitem a entrada dos pobres nos seus salões se for para servir-lhes obsequiosamente, como mucamas ou garçons.
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A história seguiu, e o povo brasileiro viu, com Lula, que podia dirigir seu país. Viu mais: que este país, invadido economicamente, culturalmente e polticamente pelos “monitores” daqueles professores que lhe cobravam, ferozes, “o dever de casa” , não precisava ser como lhe diziam que deveria ser.
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Eu vejo com tristeza muitos homens e mulheres das gerações mais velhas tornarem-se tíbios, medrosos, a encherem de vírgulas e concessões o que dizem, para deixar aceitáveis pela ditadura da mídia a verdade que já não sabem dizer de forma aguda e cortante.
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Falta-lhes já a pureza e a sinceridade do menino que, na praça cheia, rasgou o véu do temor e da conivência gritando que o rei estava nu.
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Com mais tristeza ainda vejo outros, que eram jovens abandeirados de paixões e amor a este povo se converterem em instrumentos de seus algozes, com a pífia desculpa de que os tempos são outros, quase a dizer que aquele mundo de opressão e dominação acabou. Talvez tenha acabado, sim, mas só para eles, não para as imensas massas humanas a que um dia disseram servir.
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Não são todos, talvez não sejam sequer muitos, mas foi a eles que o sistema deu luz e notoriedade e fez aos outros temer não serem aceitos, acolhidos, amados, porque teimavam em ser, mesmo que por dentro e silenciosamente, o que eram.
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Que lindas as supresas da história, porém.
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Dos frangalhos de Brasil que a ditadura e, depois, a mediocriade e o entreguismo dos governos neoliberais nos deixaram, rebrotamos, como nos versos de Neruda sobre a Espanha destruída pela barbárie franquista: “mas de cada buraco da Espanha, sai Espanha, e de cada criança morta nasce um fuzil com olhos”.
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Pois correndo o risco de parecer primário, poderíamos dizer que sai agora um fuzil com teclas. Esta nova “arma”, a internet, foi posta à prova, nestas semanas, em rápidas escaramuças: o clipe serrista da Globo e as manipulações difamatórias dos tucanos. Os tanques pesados da grande mídia continuam rolando, potentíssimos. Mas nós já podemos fustigá-los e fazer recuar.
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Nós, os que estamos ainda no começo da caminhada, que temos o coração em chamas pelo Brasil, precisamos muito dos corações que nunca deixaram esta brasa apaixonada se apagar. Precisamos de sua sabedoria e de sua coragem, que certamente é maior que a nossa, pois já passou por batalhas mais longas e mais duras.
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Somos soldados deste combate pelo povo brasileiro. Precisamos de comandantes que nos ajudem a lutar e vencer. A paixão e o amor não nos faltam.
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Então, quem sabe, juntos, poderemos soprar as brasas que se reduziram pela descrença, pelas decepções, pelas derrotas e, finalmente, em nome de milhões de nossos irmãos que nada têm de rico, senão a esperança, em nome de um país que não quer mais viver na barbárie de uma condição colonial, possamos enfim dar ao Brasil o destino próprio que uma nação e um povo como o nosso merecem.
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quarta-feira, 14 de abril de 2010

A "GRANDE MÍDIA", EM FILME DE 1979

Jarbas (Flávio São Tiago) e Mateus Romeiro (Tarcísio Meira) acertam ponteiros em "República dos Assassinos".
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Considerações do jornalista Jarbas (personagem do ator Flávio São Thiago) no filme “República dos Assassinos”, de Miguel Faria Júnior, de 1979:

“Uma das coisas que aprendi nesses anos todos é que a missão de um jornal não é dizer a verdade. Cada frase, cada foto, era arrumada nas páginas com uma determinada intenção: emocionar, fazer rir ou chorar, deixar trêmulos de medo e ansiedade os oprimidos. E informar aos privilegiados, através de códigos cifrados e pessoais, sobre quem eles deveriam temer ou contra quem eles deveriam lutar. Sim, o jornal tinha apenas um objetivo: contribuir para que o mundo dos poderosos se firmasse. Para a grande maioria, restava apenas acreditar que nas notícias estava o mundo em que eles viviam.”

“República dos Assassinos” é baseado no livro do mesmo nome escrito por Aguinaldo Silva, repórter policial no início de sua carreira profissional e hoje autor de telenovelas. Um filmaço. O elenco é de primeiríssima linha, com nomes como Tarcísio Meira, Anselmo Vasconcelos, Ítalo Rossi, José Lewgoy, Paulo Villaça, Milton Moraes, Rogério Fróes, Tonico Pereira, José Dumond, Sandra Brea, Sílvia Bandeira (gatíssimas e no auge da beleza física) e Elba Ramalho (fazendo uma ponta como mendiga). A trilha sonora é de Chico Buarque e inclui joias como “Não sonho mais” (apresentada na abertura em versão instrumental, cantarolada por Elba em sua curta participação e pela dupla Elba/Chico no encerramento) e “Sob Medida” (cantada – ou dublada, não sei ao certo − por Sandra Brea no filme, a música fez sucesso na voz de Fafá de Belém).

Jarbas faz suas reflexões depois de cair em desgraça ao ser tornado público seu conluio com Mateus Romeiro (Tarcísio), policial retratado à maneira dos integrantes do “Esquadrão da Morte” (no filme, "Os Homens de Aço") e de policiais corruptos da vida real − é muito clara a inspiração em Mariel Mariscott. O acordo entre Jarbas e Mateus é muito simples: o primeiro recebe do segundo, de antemão e com exclusividade, a data, horário e local em que um bandido será executado. Em troca, Jarbas exalta a “coragem” de Mateus em textos fantasiosos, que transformam marginais de menor monta, assassinados sem chance de defesa, em perigosos meliantes mortos ao "reagir à ação da polícia". Tudo com a anuência do dono do jornal, o oportunista Gilberto (José Lewgoy), que depois passa a combater a força policial que ele próprio ajudou a promover.

Quaisquer semelhanças entre Jarbas (e sua posterior análise do papel da imprensa), o empresário de comunicação Gilberto e a “grande mídia” não são mera coincidência. Concorda ou discorda?

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terça-feira, 6 de abril de 2010

LA MOSCA BLANCA – NÚMERO 163: A CORRIDA DA MINHA VIDA

O premonitório cartaz desenhado pelo Gabriel, um pouco amassado depois de ser várias vezes dobrado e colocado no bolso...
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Resultado oficial da corrida. Não fui o mais rápido, mas fui o vencedor.
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A histórica primeira fila do Psychodelic Team Lotus em Interlagos: Alexander Grünwald (36) na pole position e Luiz Alberto Pandini (16) em segundo lugar. Foto: Marcelo.

O frio na barriga, a concentração na pilotagem, a vontade que a corrida termine logo, a preocupação com o funcionamento da máquina. A última freada, a última curva, a aceleração vigorosa para receber a bandeirada quadriculada que será dada pelo homem posicionado logo adiante. Gritos e sorrisos por dentro do capacete, socos no ar. E o pensamento no meu menino, que pela primeira vez me acompanhou a uma pista para me ver correr. E vencer.
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Ganhei uma corrida de kart! Diante do Gabriel e em solo sagrado: o kartódromo de Interlagos. Sob condições difíceis: garoa fina e pista extremamente escorregadia, encharcada pela chuva que caiu sem cessar durante toda a tarde e começo da noite.
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Demorou um ano e meio (ou quatro anos; leia aqui e fique à vontade para usar o período que julgar aplicável) para que eu voltasse a comemorar uma vitória. Valeu a espera. Não era uma prova da FIAk, o campeonato de jornalistas que disputo prioritariamente, mas isso não importou. O importante era saborear o gosto de vencer uma corrida − coisa que, confesso, não imaginei que voltaria a acontecer.
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Tudo começou na sexta-feira santa, 2 de abril, com um telefonema de Alexander Grünwald, meu companheiro na equipe Psychodelic Team Lotus na FIAk desde a temporada de 2009.
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– Camarada, amanhã vou correr de kart em Interlagos com uma galera da Globo. Tá a fim de ir?
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Óbvio que estava. Aproveitei para levar o Gabriel, que não comparece às corridas da FIAk por causa dos dias e horários (sempre no meio da semana e depois das 22h00; tem gente que fala que a FIAk não faz corridas e sim raves). Gabriel, volta e meia, coloca meu macacão, capacete, balaclavas e luvas – e ficou empolgado com a chance de me ver correndo pela primeira vez. Isso já me deixou contente. Mas Gabriel fez mais. Pouco antes de sairmos de casa, ele pegou uma folha de sulfite e, com lápis de cor, desenhou um cartaz para torcer por mim. “Você vai ganhar, papai!”, escreveu ele. Nem eu botava tanta fé − até porque, exceto Grun, não conhecia nenhuma das pessoas que correriam conosco.
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No sábado à tarde, começou a chover. Continuou chovendo até o começo da noite. A corrida estava marcada para as 21h30 e, apesar de a chuva ter dado uma trégua, a pista continuava encharcada no momento em que saímos para o treino classificatório. Imaginei que secaria com a passagem dos karts, mas uma garoa fina persistiu e manteve o asfalto sempre molhado.
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Depois do briefing (que Gabriel assistiu atentamente), fiz os últimos gestos do ritual pré-corrida: vestir a balaclava, o capacete, as luvas e colocar o protetor do pescoço. Por dentro do capacete, dei um beijo no Gabriel e me despedi: “Até já, filhote!”. Fui então ao parque fechado. Ao contrário das provas da FIAk, não haveria sorteio de karts nem lastreamento.
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Sentei no primeiro kart vago que apareceu na minha frente – era o número 1. Regulei o banco, experimentei os pedais e não me senti muito à vontade. Pulei para o kart seguinte, número 40, e pouco depois um mecânico pediu que eu passasse para outro. “Pegue aquele que está lá na frente”, recomendou. Estava bem na saída dos boxes e tinha o número 16.
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Box aberto, saí para a tomada de tempos. A pista estava um sabão e, para quem não sabe, karts de aluguel correm sempre com pneus slick, chova ou faça sol. Para piorar, o kartódromo de Interlagos tem uma particularidade: os trechos final e inicial do traçado são bem iluminados à noite, mas cerca de um terço da volta é percorrido sob quase escuridão. No molhado, a visibilidade no escuro piora terrivelmente. Se a viseira ficar suja por fora ou embaçada por dentro, pior ainda.
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Passei pela primeira vez em frente ao box e dei um tchauzinho para o Gabriel... apenas para descobrir que isso me fez perder o ponto de freada, logo adiante. Rodei bonito na primeira curva, e rodaria em outras tentando descobrir limites. Baseado nas minhas experiências anteriores com chuva, decidi que o melhor seria frear bem cedo e fazer as curvas devagar, acelerando com todo o cuidado para evitar rodadas e derrapar o mínimo possível. Freadas, acelerações e movimentos do volante tinham que ser feitos com a maior suavidade possível. Mesmo assim, em várias saídas de curva o kart ficou de lado tão logo dei acelerador. Não ia ser brincadeira.
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Com a pista molhada, o ponto de frenagem para a primeira curva após a passagem pelos boxes teve que ser bastante adiantado, justamente onde se tornava possível visualizar o painel eletrônico com os tempos e as colocações dos pilotos. Em algum momento, vi meu número 16 em primeiro lugar. Na olhada seguinte, algumas voltas depois, o número 1 estava no topo. Quando o treino acabou e o grid começou a ser formado, soube que o pole era o Grun. Consegui o segundo tempo no grid, o que para mim já estava muito bom. (Horas depois, degustando uma pizza no restaurante Urca, analisamos com calma a folha de tempos. Grun havia conseguido, sabe-se lá como, uma volta arrasadora: 1:17.110. Meu melhor tempo havia sido 1:20.680, ainda assim bem mais lento que a segunda volta mais rápida do Grun − 1:19.000.)
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Alinhados na primeira fila do grid, Grun e eu recebemos um incentivo do Gabriel, que observava tudo do box, com extremo interesse. Cada um em seu kart, trocamos sinais de "vamos usar a cabeça". De repente, notei uma movimentação: o kart do Grun havia apagado. Quando o mecânico foi religá-lo, descobriu que o puxador da correia acionada para dar a partida havia caído. Grun trocou de kart (pegou o 36) porque, se o motor apagasse no meio da pista, não haveria como religá-lo.
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Luzes verdes, largada. Grun partiu na frente e eu fui atrás dele, tomando todo o cuidado possível. Meu companheiro na Psychodelic Team Lotus (antes que me corrijam: é “Psychodelic” mesmo) liderou uma ou duas voltas e rodou. Me vi liderando a corrida e, empolgado, tentei abrir alguma distância. O resultado, duas voltas depois, foi uma rodada na primeira curva após os boxes. Caí para segundo, novamente atrás do Grun. Louco da vida, tentei arriscar mais para me aproximar dele – e tudo o que consegui foram alguns sustos que considerei dispensáveis. “Segundo já está bom demais”, pensei – e voltei a pilotar com prudência.
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Uma ou duas voltas depois, Grun deu nova rodada. Eu era líder outra vez e estava determinado a manter o ritmo que me parecia seguro. Tinha certeza de que seria ultrapassado em breve, mas as voltas foram sucedendo e eu continuava em primeiro lugar. Concentrado na pilotagem, não olhava o placar eletrônico nem virava para trás para ver se alguém me seguia – o mínimo vacilo poderia provocar uma rodada que colocaria tudo a perder. Os retardatários não foram problema: todos colaboraram ao receber bandeiras azuis, mas dois deles rodaram bem na minha frente e exigiram de mim algum malabarismo para evitar uma batida.
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Fui nessa tocada até que uma freada tardia me deixou completamente de lado na curva após a torre, localizada no trecho “escuro” da pista. Consegui controlar o kart e apontá-lo de novo para a frente sem perder muito tempo. Aproveitei a "atravessada" para olhar para trás − e percebi que estava longe de todo mundo. Ganhei confiança e comecei a realmente acreditar na possibilidade de vencer a corrida. Também passei a curtir mais a pilotagem na pista escorregadia. O trecho mais empolgante ia da saída do miolo à freada para a curva da Balança, a última antes da linha de chegada. Ele iniciava com um S suave, que eu fazia acelerando fundo e passando com tudo por cima de duas zebras, uma à direita e outra à esquerda, tendo que controlar o kart para, na saída, colocá-lo em um dos poucos pedaços de pista que proporcionavam melhor aderência. E ia de pé embaixo até entrar na reta da Balança, começar a frear para conseguir contornar sem grandes sustos a curva do mesmo nome e entrar na reta dos boxes controlando o acelerador e a inevitável derrapagem no piso molhado.
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Comecei então a pensar que Gabriel veria uma vitória minha logo na primeira corrida em que compareceu. Imediatamente, parei de pensar nisso e me concentrei na pilotagem, para evitar algum erro estúpido. Incidentes de outrora começaram a surgir na memória: uma vitória perdida na última curva da última volta na pista antiga da Planet Kart, em 1996, por erro meu − doeu na alma, durante anos. Uma quebra que me fez perder cinco voltas na Pit Stop, em 1997, quando liderava com sobras a corrida mais fácil da minha vida (os únicos adversários eram meu amigo Wilson Baldini Júnior e sua esposa Paula, que nunca haviam corrido, e uma amiga da Paula que mal sabia dirigir na rua. Troquei de kart, consegui descontar três voltas, mas tive que me contentar com o segundo lugar, atrás do Baldo). É incrível como nessas horas surge a lembrança de tudo o que aconteceu de errado no passado. Na reta dos boxes, me vi em plena conversa com o kart: “Falta pouco, kartzinho, não me deixe na mão...”.
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Felizmente, esse período de agonia durou pouco. Entrei na reta dos boxes e vi a bandeira branca sinalizando a última volta. “Vai, cara! É só fazer tudo direitinho que você ganha essa!”, pensei. Na passagem seguinte, recebi a bandeirada quadriculada de uma das corridas mais emocionantes da minha vida. Já posso dizer: “Ganhei uma corrida em Interlagos”. Um sonho de garoto transformado em realidade. Soquei o ar com vontade, gesticulei à beça para o Gabriel e, como o parque fechado era depois dos boxes, ao completar a volta de honra ainda pude parar diante dele e berrar por dentro do capacete: “Essa é para você!”.
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Parei no parque fechado, saí do kart e recebi os cumprimentos de alguns dos outros pilotos. Grun, o último a estacionar, me saudou efusivamente, feliz como se ele mesmo tivesse vencido a corrida. Em seguida, ainda de capacete, vi uma cena inesquecível: Gabriel correndo em minha direção para me abraçar. Peguei-o no colo, fiz a maior festa. No bar do kartódromo, comprei uma garrafa de cerveja para estourar no pódio – evidentemente, Gabriel subiu comigo no degrau mais alto. Grun ficou em sexto. Perdeu três posições ao rodar na volta final, mas pareceu não se importar com isso. Estava genuinamente contente com minha vitória.
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Gabriel, Grun e eu decidimos comemorar na Urca, uma pizzaria simpática na esquina da Avenida Brigadeiro Luiz Antônio com a Alameda Santos. Pedimos um vinho para celebrar nossa atuação – ele, afinal, foi o piloto mais rápido do nosso evento. Para mim, uma corrida inesquecível − pelo resultado e pela importância do pequeno espectador que acompanhou tudo dos boxes. A mais bela das poucas vitórias (cinco ou seis) que consegui em minha “carreira” de piloto de kart amador. A corrida da minha vida.

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Eu e Gabriel em 2009...



...e uma de minhas corridas na Granja Viana, no ano passado. Aguardem: as imagens de arquivo serão substituídas tão logo eu receba as da corrida de sábado.

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quinta-feira, 1 de abril de 2010

LA MOSCA BLANCA - NÚMERO 162: CARA OU COROA... E UMA LINDA ULTRAPASSAGEM


Autêntica "Mosca Blanca": a ultrapassagem de Ickx, por fora e no molhado, sobre Lauda na curva Paddock durante a Corrida dos Campeões de 1974, em Brands Hatch. A foto, de autoria desconhecida, foi publicada no livro "The Forgotten Races", de Chris Ellard.
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A mesma ultrapassagem retratada pelos pincéis do artista Michael Turner, famoso por suas reproduções de grandes momentos de corridas.
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Leio no Tazio que Fairuz Fauzy, piloto malaio, recebeu da Lotus Racing a oportunidade de participar dos treinos desta sexta-feira para o GP da Malásia - uma manobra permitida pela FIA para as equipes proporcionarem quilometragem a seus pilotos de teste. Para que isso aconteça, um dos pilotos titulares deve ceder lugar - e a decisão, feita no cara ou coroa, beneficiou Jarno Trulli. Fauzy participará dos treinos de sexta usando o carro de Heikki Kovalainen, que voltará ao cockpit no sábado e no domingo.
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É provável que ninguém da Lotus Racing saiba, mas história parecida aconteceu com a equipe antecessora, oficialmente denominada Team Lotus. Em 1974, Colin Chapman promoveu um cara ou coroa para decidir qual de seus pilotos, Jacky Ickx ou Ronnie Peterson, participaria da Corrida dos Campeões, tradicional prova extracampeonato disputada em Brands Hatch. Chapman inscrevera apenas um carro, mas os dois pilotos faziam questão de correr. Explicável: havia prêmios em dinheiro e um dos mimos mais cobiçados da temporada: cem garrafas de champagne para o piloto que fizesse o melhor tempo no primeiro treino oficial. Evidentemente, boa parte dessas 100 garrafas era dividida com os mecânicos.
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Depois de ganhar no sorteio o direito de pilotar o único Lotus, Ickx venceu na raça uma corrida disputada nas condições que ele mais apreciava: chuva - e das boas. O belga largou em 11° lugar e, gradualmente, subiu de posição até se ver atrás da Ferrari de Niki Lauda, que liderava a prova. Lauda passou a ter problemas com o amortecedor traseiro esquerdo, facilitando a aproximação de Ickx. Na volta 34 (de 40 disputadas), o belga ignorou a pista encharcada e ultrapassou Lauda por fora na Paddock Bend, a primeira curva após os boxes. Uma manobra considerada das mais belas da história da F1.
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Considerando o estágio de competitividade da atual equipe Lotus, é provável que a semelhança entre o cara ou coroa de 1974 e o de 2010 tenha se encerrado no momento em que a moeda caiu no chão.
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Em tempo: já perdi minha implicância com a atual equipe Lotus. Só não consigo, apesar das permissões legais e das identidades visuais e históricas, considerá-la uma continuação da "velha" Lotus que correu na F1 entre 1958 e 1994. Imaginem uma equipe Fittipaldi ressuscitada na China. Mesmo que tivesse a bênção de Emerson e Wilsinho e um carro amarelo repleto de beija-flores coloridos, dificilmente eu conseguiria considerá-la uma continuação natural da antiga Fittipaldi. Daí minha distinção, via designações oficiais junto à FIA, para as duas Lotus: Team Lotus para a equipe "clássica" e "Lotus Racing" para a atual.
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Trulli à frente de Kovalainen no GP de Bahrein. Como Ickx, o italiano também ganhou sobre um companheiro de equipe nórdico um sorteio na moeda. As semelhanças com a Corrida dos Campeões de 1974, entretanto, provavelmente vão parar por aí...
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Fairuz Fauzy e o Lotus 127T-Cosworth durante os testes coletivos de Barcelona, em fevereiro.

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