$ENNA, O FILME
O ano era 2004. De um amigo, recebi o pedido para gravar o “Globo Repórter” dedicado aos dez anos da morte de Ayrton Senna. Fi-lo, imaginando de antemão o que viria pela frente: um programa inteiro com louvaminhas nas quais a carreira vitoriosa e a morte prematura eram apenas pretextos para compor um quadro que apresentasse “o campeão”, “o patriota”, “o conquistador de mulheres”, “o ser humano”. E, claro, que tentasse arrancar lágrimas dos telespectadores, bem ao estilo dos responsáveis pelo “padrão Globo de jornalismo”.
Minhas suspeitas se confirmaram. O programa teve tudo isso e mais um elemento: “o filantropo cuja obra social passou a ser organizada por meio de um instituto com seu nome, criado por familiares após sua morte”. Em suma: aquele “Globo Repórter”, na minha visão, se assemelhou muito mais a uma peça de propaganda do Instituto Ayrton Senna do que a um documentário jornalístico sobre a carreira do piloto.
Corta para 15 de novembro de 2010. Eu já havia esquecido de todos os acontecimentos narrados acima quando fui ao cinema para assistir “Senna”, o documentário da produtora britânica Working Title dirigido por Asif Kapadia com roteiro de Manish Pandey. Relatos dos amigos jornalistas que haviam visto o filme eram animadores: boas entrevistas, imagens inéditas, direção competente ao montar o filme a partir de entrevistas antigas e sem recorrer a um narrador fixo. Somente duas pessoas deram depoimentos exclusivamente para o filme: Reginaldo Leme, que acompanhou de perto toda a carreira de Senna desde o kart, e a onipresente Viviane Senna, sempre atenta para salvaguardar os direitos de uso de nome e imagem do irmão.
Apesar da quantidade e qualidade de material inédito, saí do cinema com uma estranhíssima sensação de já ter visto aquele filme antes. Foi aí que lembrei do “Globo Repórter”. “Senna”, o filme, explora três vertentes: a determinação do piloto, a rivalidade com Alain Prost (aqui, inevitavelmente entra junto o enfrentamento do piloto brasileiro com Jean-Marie Balestre, presidente da FISA entre 1978 e 1991) e a idolatria ao piloto brasileiro. Estes três eixos podem ter sido apenas uma opção do diretor ao priorizar determinados acontecimentos em detrimento de outros − algo que seria perfeitamente natural, devido à impossibilidade de explorar rigorosamente todos os aspectos da carreira de um piloto como Senna em um documentário de duas horas. A questão, para mim, é que a semelhança de conteúdo (e, principalmente, de “não conteúdo”) entre o “Globo Repórter” de seis anos atrás e o filme que está em cartaz é grande demais para ser mera coincidência.
Em ambos, desapareceram da narrativa sobre a vida de Senna os fatos “inconvenientes” à imagem de esportista invencível e de super-herói impoluto, características tão caras aos que hoje detém o “direito” de explorar a imagem do ídolo morto. Conflitos, só aqueles dos quais Senna saiu engrandecido, ao menos perante o público. As rusgas com Nelson Piquet, tanto as esportivas quanto as extra-pista, sequer são mencionadas. Nigel Mansell, com quem Senna se estranhou várias vezes dentro e fora das pistas, só é mencionado como o adversário na luta pelo título de 1991. Tanto no “Globo Repórter” quanto em “Senna”, a carreira do piloto antes da F1 é mencionada de maneira extremamente superficial − e não faltam títulos, vitórias, histórias interessantes e mesmo controvertidas passadas no kart, na Fórmula Ford e na Fórmula 3. Polêmicas menores ou desconhecidas do grande público, mas não menos reveladoras da personalidade do piloto, também ficaram de fora.
O caráter oficialesco de “Senna” é notado de diversas maneiras. As citações ao Instituto Ayrton Senna, que deu seu aval à produção do filme, são apenas as mais evidentes. A diferença de tratamento dada a Xuxa e Adriane Galisteu coincide exatamente com as preferências da família Senna. Goste-se ou não de Adriane, era com ela que Senna namorava em 1994 − e não faltam entrevistas dadas na época, com revelações sobre diálogos com o piloto apenas um dia antes de sua morte.
“Senna”, o documentário, cumpre com brilhantismo suas funções: ser um instrumento (não muito sutil) de merchandising do Instituto Ayrton Senna, servir como (mais um) produto de arrecadação de fundos e manter o mito Senna na memória coletiva para que o IAS possa continuar faturando com produtos e eventos como livros, vídeos, exposições, cartões de crédito, brinquedos, corridas a pé, alimentos, porta-copos, cadeiras de praia e tudo o mais que possa ser licenciado (leia-se "pago") para usar a imagem de Ayrton Senna. No entanto, foram as façanhas de Senna nas pistas que possibilitaram as existências do ídolo e do mito − e não o contrário, como as obras “oficiais” sobre o piloto fazem transparecer, deliberadamente ou não. Infelizmente, os fãs de automobilismo continuam aguardando a realização de um documentário com D maiúsculo sobre a carreira de Ayrton Senna.
PS - O nome completo do piloto citado por Senna em 1993 como o rival com quem mais teve prazer em duelar na carreira é Terry Fullerton. Para quem se surpreendeu com a revelação, trata-se de um piloto inglês que abriu mão de disputar as categorias de base do automobilismo e construiu uma sólida carreira profissional no kart − algo bastante comum no kartismo europeu.
Marcadores: Ayrton Senna, filme, Terry Fullerton



25 Comentários:
Que era uma visão oficial sobre Senna, disso eu não tinha lá muitas dúvidas. Mas não penso que o documentário pese tanto a mão na construção do ídolo.
São duas horas de filme para falar de uma vida. Um recorte é inevitável. Esse recorte, me parece não é tanto assim o de um semideus. Suas vitórias são mostradas obviamente na chave melodramática, mas o filme não é só isso.
Antes, é a cnstrução de um personagem, em três momentos distintos e muitíssimo bem marcados: surge um talento, o talento se defronta com forças políticas extrapista que manipulam o esporte e as vence de carta forma, o talento morre.
Mas o talento tabém erra, e isso aparece ao menos três vezes npo filme (de duas horas). O recorte poderia ser muito menos sutil, se ele quisesse. Material de arquivo, para isso, não falta.
Mas isso não quer dizer que eu ache que o documentário é bom. A grande falha dele, na minha opinião, é que os momentos realmente reveladores passaram despercebidos pelo diretor.
Kapadia não é um mau diretor. Tem um segundo prêmio Caméra d'Or na estante e quase foi indicado ao Oscar. Mas não tem muita familiaridade com a Fórmula 1.
Não que fosse necessário, diga-se. Acho que o cineasta que faria 'o' documentário sobre o Senna se chama Werner Herzog. Quem discorda pode alugar o melhor documentário já feito, "O Homem-Urso" - cujo protagonista, inclusive, é muito semelhante a Senna: um produto da civilização que flerta com o selvagem, o irracional, que não tem medo de bater de frente com certos jogos de poder.
E cuja morte foi transformada em imagem, fez muitos lucrarem e forneceu uma explicação extremamente cômoda à razão civilizatória.
Quem não gosta, nunca gostará, quem nunca gostou também não faz um esforço para gostar, quem podia gostar é logo desmotivado pelo teu post tendencioso e com falta de rigor!!
Mais outra, você deixou de ser um Blogueiro a seguir por todos e passou a ser mais um que dá pitaco sobre em quem votar e por aí fora!!!!
Ganha juizo ó Pandini; tás a falhar como tudoo!!!!!!
Pedro
Portugal
Finalmente alguém com respaldo pra transcrever tudo o que sempre digo sobre esse mito criado, e me fazer sentir alívio, com um sonoro "uffa... Não sou a única a ver tudo desse jeito".
Na verdade, acho que esse post era o que esperava para deixar minha relutância em ver o filme mais... "científica".
Quando muuuuito criança, via em Ayrton um herói, sim. Ainda muito nova, Ayrton se foi, criaram o Senna, aquele Deus, a qual eu tenho literal pavor. Nojo, daquilo que transformaram alguém que tinha muito mais a oferecer como história.
Desde a primeira divulgação do documentário, eu, vivendo em Londres a tal altura, só escutava "tenho que ver esse documentário". Pois bem, saiu o filme, e já perdi as contas de quantos "você TEM que assistir esse filme. Não é comercial, não o tratam como deus, na verdade, ele tá bem carne e osso".
Desconfiei.
Achei pouco provável que a tal abordagem imparcial tivesse sido tomada, mesmo porque, essa fixação, com esse Senna, pobre de conteúdo, não é só brasileira. Longe disso. É rentável não só pro IAS, como tb à própria F1.
Não vou ignorar o filme pra sempre, gostando ou não do conteúdo, é o que se tem, é o que se fala hoje nas rodas de bate papo, é informação. Por mais dramática que seja.
Mas a minha pressa em ir ao cinema PARA VER "Senna" que já era pouca, é agora praticamente nula.
Quando finalmente o vir, acho bem provável que concorde, mais uma vez, com todas essas linhas.
obs.: Como o Médici, acho que Herzog faria um bom trabalho. Embora continue achando difícil que algo livre de rótulos seja feito sobre Ayrton, simplesmente porque não é interessante, comercialmente falando, para nenhum daqueles que retém seus direitos, seja de nome ou imagem. Leia-se Viviane, a irmã, que parece adorar uma câmera e microfone.
bjo
Pedro, se eu seguisse conselhos como os teus, não chegaria a lugar algum. Cordiais saudações. (LAP)
Vocês reclamam demais, gente. É claro e evidente que o filme que contou com o aval do Instituto Ayrton Senna jamais sairia do jeito que nós gostaríamos que fosse. Quando digo "nós", me refiro aos que acompanham de verdade a Fórmula 1, e não aos torcedores de ocasião, que só sabem valorizar um esporte quando tem brasileiro competindo e olhe lá (se não for vencedor, esqueça).
Vejam o filme apenas com a curiosidade de saber o que será mostrado na tela, e também para matar a curiosidade de ver imagens da Fórmula 1 em uma tela de cinema. Para mim, isso é algo inédito.
O filme tem falhas? Claro que tem. Mostrar a carreira de Ayrton como se ele tivesse pulado do kart para a Fórmula 1 é uma delas. Não explorar mais o tempo de Toleman ou Lotus é outra, assim como não deixar muito claro que Senna e Prost se reconciliaram, as rusgas com Piquet, entre outras.
Vejam o filme sem esperar tanto dele, curtam as imagens inéditas, a montagem feita etc. Mas lembrem-se que o filme foi feito para agradar o público em geral (só isso explica o fato de ele ser exibido nos cinemas de todo o país), para provocar choradeira mesmo, e não aos verdadeiros fãs do automobilismo.
Olá Pandini!
Eu que sou um verdadeiro fã de automobilismo não caí na choradeira (apesar de sempre me emocionar quando vejo as cenas daa conquista do Senna em Interlagos em 91). Já tinha visto depoimentos de jornalistas que tinham assistido o filme antes do lançamento oficial e procurei ver o filme com um senso menos crítico. Gostei do que vi mas sei que este não é um filme para falar apenas de Formula 1 e talvez nem tenha sido feito para enaltecer a carreira e toda a trajetória do Piloto Ayrton Senna até os dias derradeiros.
Não tenho absolutamente nada contra a forma como as pessoa louvam o Senna e de fato as vezes é meio chato ver gente que nem entende de corridas falarem dele mas não ache tão ruim assim. É um filme mais comovente do que empolgante.
Abs
Essa foi a segunda melhor crítica que li sobre "Senna, o filme"
A melhor está aqui:
http://formula-2.blogspot.com/2010/11/senna-o-filme.html
Realmente, Ivam... Mais direto, impossível!
Desde que li as primeiras criticas já me decidi em não assistir. Eventualmente na Tv pois em algum momento irá passar.
Sempre respeitei o piloto um dos melhores sem dúvida, mas não "O melhor" isso não existe e sempre detestei o personagem que, afinal, ele era. Discordo frontalmente de seus tópicos políticos, já conversamos bastante do Templo a respeito, mas este aqui é muito bom, mesmo! Infeliz é o povo que precisa de ídolos (de qualquer tipo) para viver.
Parabéns também para a Ingrid.
Abração Pandini.
Vale a pena assistir o filme pelas cenas dos briefings mostradas. A do GP do Japão de 90 com o Piquet é sensacional.
Sobre a narrativa, acho que o maior pecado foi a preocupação de se concentrar no tema "Senna vs Política (Prost e Balestre)" e esqueceram um pouco de mostrar o motivo do Ayrton ter tantos fãs: ele guiava muito.
Senti falta das grandes pilotagens do Senna durante o filme. Parece que o GP do Japão era o único do calendário.
Abs!
Panda,
Parabéns. Finalmente uma resenha boa deste filme. Tive exatamente a mesma sensação que você ao assisti-lo.
Abraços,
Zé Eduardo
O Pandini queria ver um filme em que mostrassem o Senna como homossexual - o problema não é Xuxa ou galisteu, é aquele 'preparador físico' da entrevista do Piquet em 1988.
O Pandini queria ver um filme em que mostrassem Ayrton Senna vetando Derik Warwick na Lotus, 'roubando' Ímola/89 do Prost, não dando autógrafo para o Massa.
O Pandini queria ver um filme em que Senna conversava com galvão bueno, lhe dava dinheiro, e o obrigava a falar bem de si 'na manhã de Domingo'.
O Pandini queria ver um filme que mostrasse o Senna em 1994 se matando contra o próprio talento, porque finalmente um piloto - Schumacher - sem recursos financeiros, esse sim talentoso de verdade, veio e o venceu, no braço.
O Pandini queria ver um filme em que Senna estivesse articulando nos bastidores para prejudicar Schumacher em 1994, Prost antes, antes e antes, e Piquet antes ainda.
O Pandini queria ver um filme em que Senna quis manchar a imagem de Piquet, transformando-o num bandido, o que na verdade é o contrário, pois o bandido é Senna.
O Pandini queria ver um filme em que Senna pagava 2 milhões de dólares para o porjetista da Lotus fazer um carro ruim para Nelson Piquet em 1988 - coisa que o Panda escreveu num resposta a leitores no GP Total, alguns anos atrás ( http://www.gptotal.com.br/pergunteedu/pergunte_1quin_fev03.htm )
O Pandini queria ver o Senna dando risada e estourando champagne quando Piquet se acidentou em Ímola/1987, mas depois ficando bravo porque o Nelson não morreu.
O Pandini queria ver Ímola, 1º de Maio e Williams como a resposta a tudo isso.
O Pandini queria ver um filme que mostrasse que Senna era um maníaco pervertido e, principalmente, muito inferior na pilotagem a Piquet e Michael Schumacher.
Apenas para esclarecer: eu nunca escrevi que Senna pagou US$ 2 milhões a quem quer que seja. O link indicado pelo Hermanos leva ao seguinte texto:
Caro Panda,
(...) Sei dos vários motivos que não permitiram que a Williams continuasse a desenvolver o carro de 87. Mas a pergunta é a seguinte: SE a Williams continuasse em 88 a correr de Honda, com Piquet e Mansell, e desenvolvendo o ótimo chassis de 87, o que você acha que poderíamos ter visto em 88?
Como ficaria, na sua opinião, a classificação final? (...) Eu lamento que essa conjuntura não tenha se formado. Penso que Senna seria campeão da mesma forma, porque estava muito estimulado com seu primeiro carro campeão. Mas não seria fácil, nem consigo imaginar quem seria o vice. Mansell estava em grande forma, Piquet pontuando demais, e Prost, bem, a McLaren de 88 parecia ter um carro melhor do que a Williams poderia desenvolver.
Abraços,
Márcio Madeira da Cunha (Nova Friburgo-RJ)
Oi, Márcio. Vou confessar: detesto fazer análises sobre o que não aconteceu. Mas tentarei responder à sua pergunta.
Também acho que a disputa em 1988 seria mais acirrada. Não daria favoritismo absoluto a Senna, não. Acho que tanto ele quanto Piquet e Prost poderiam ficar com o título. Só não incluo Mansell por causa de um fato concreto: em 1988, ele ficou duas corridas afastado por causa de uma catapora contraída de um dos filhos.
A própria Lotus poderia ter entrado na briga se não tivesse feito um carro tão ruim. Aliás, a história desse carro despertou especulações na época, inclusive de que Gerard Ducarouge, projetista da Lotus, teria feito um carro ruim de propósito, em troca de US$ 2 milhões. Não escrevo de jeito nenhum quem seria o maior suspeito de ter pago esse dinheiro caso a história seja verdadeira, mas coloque no papel as pessoas que teriam interesse e benefícios em ver a Lotus fora da jogada e você terá em mãos uma boa lista de suspeitos, inclusive pessoas cuja moral e caráter são considerados ilibados. Se você acha US$ 2 milhões muito pouco para um projetista se arriscar a "queimar" sua imagem (como realmente queimou), lembre-se que o maior salário da época entre pilotos era o de Piquet (cerca de US$ 6,5 milhões) e que as equipes de ponta tinham orçamentos da ordem de, no máximo, US$ 25 milhões a 30 milhões. (...) Abraços. (LAP)
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"Hermanos", retirei seus últimos comentários e, também, as minhas respostas. Meu blogue não é palanque de lunáticos que pensam ter o dom de saber o que os outros pensam. Cordiais saudações. (LAP)
Oi, Panda.
Sei que você não curte o "cara", e deve ter suas razões. Aliás, em certos pontos eu inclusive concordo contigo: Rede Globo, IAS, Viviane, "Bruninho", Xuxa, etc.
Achei tosco, por exemplo, incluir-se a cena do 'Xou da Xuxa' e excluir-se a primeira votla de Donington-1993, para ficar em apenas um exemplo.
Porém, eu acredito que por mais esforço que se faça para tentar separar o piloto do ídolo, por mais que se tente relativizar seus feitos e explicar sua idolatria da forma mais racional - e matemática: Galvão+morte trágica+Marketing+jornalismo mal intencionado+IAS+dinehiro investido - que se possa fazer, ainda ficamos devendo algo: ele conseguiu esse status ainda em vida, e em diversos lugares, muitos deles onde a F1 não era popular.
Falando nisso, hoje morreu Cristopher Hilton, autor de várias obras sobre Senna. Uma delas, "A Face do Gênio"< publicada quando Senna era 'apenas' bicampeão, aos 30 anos de idade.
Abraços - Marcel Pilatti, Curitiba/PR
Marcel, você entendeu perfeitamente meu ponto de vista. Não tenho nada a ponderar a seu comentário, a não ser meu espanto com a informação de que Christopher Hilton morreu.
Isso me fez lembrar que, pouco tempo atrás, comprei o livro "Ayrton Senna", escrito pelo Christopher Hilton e com várias fotos interessantes do piloto. Lendo-o, achei um erro bizarro: o tradutor da legenda tem a menor ideia de quem é Sid Mosca, e pelo jeito ninguém que tenha revisado o livro teve o cuidado ou o conhecimento para explicar. Descontados esses detalhes, o livro é bastante interessante.
Ao contrário do que alguns podem imaginar, tenho em casa muitas obras sobre Senna, várias revistas e jornais com reportagens suas desde a época do kart e todas as folhas de tempo da histórica corrida de Donington em 1993, que tive a honra de cobrir in loco.
Por que escrevo isso? Simples: para desferir um tapa com luva de pelica naqueles que acham que nutro um ódio irracional por Ayrton Senna. Irracional, essa sim, é a idolatria cega e doentia dessas pessoas. Abraços, Marcel! (LAP)
Oi Pandini!
Todos os elementos que envolvem o nome Senna são dignos da criação de um produto fantástico. E incluo aqui os elementos que ele próprio tinha naturalmente, os que ele desenvolveu e sustentou graças à orientação de uma emissora e de seus assessores, e também (e principalmente) a morte brutal, ao vivo, liderando uma prova.
Você encontra estes elementos nos protagonistas de filmes de ficção. Imagine em um protagonista de um filme da "vida real", cujos fatos são todos verdadeiros - com ou sem cortes.
É evidente que se em vida Senna ajudou a construir o próprio "heroísmo", após sua morte cinematográfica os responsáveis por seu nome/marca/espólio cuidariam de alavancar ainda mais tal imagem. Concordo com seu texto e com seus argumentos habituais a respeito do combo Rede Globo/Viviane Senna. Mas vejo isso como um fato natural. Se o Senna mortal e errático já rende uma boa dose de aplausos e lágrimas, o Senna heróico é um produto que beira a perfeição. Evidentemente, é este que será sempre explorado e comercializado.
Abração!
Hugo Becker
Assistindo o filme "Invictus" me lembrei de Ayrton Senna. Calma, não o estou comparando a Nelson Mandela, não entendam errado.
Mas, no filme, o personagem de Freeman (Mandela) revela que sempre torcia contra o time X (me falha a memória sobre o nome da equipe, que era o representante do governo Apartheid) não pelo time em si mas PELO QUE ELE REPRESENTAVA.
E penso da mesma forma quanto a Ayrton Senna: muitas pessoas, hoje e em menor medida na época, passaram a desgostar de Senna não pelo que ele foi como piloto, ser humano, etc, mas sim pelo que ele representa: sua figura é atrelada à Rede Globo, principalmente, e depois a todas as consequências disso, como supramencionei.
Não é muito diferente com outros ídolos e personagens locais: por exemplo, vejo que muita gente revela-se anti-Roberto Carlos (el cantante) não porque considere sua música ruim, ou porquê o veja como um cantor de má qualidade, mas porque, novamente, vêem sua imagem atrelada à Globo e, em menor medida, o consideram um puxa-saco da ditadura.
Caro Panda, não leve isso como crítica mas, se muitas vezes as pessoas pensam que você nutre tal ódio, é porque EM ALGUMAS SITUAÇÕES, você usa de um tom de agressividade nas respostas.
Mas, sei lá, eu entendo que muitos leitores nem sabem do que estão falando e também te agridem.
Oi, Marcel. Você conhece o tipo: ao ler ou ouvir qualquer tipo de comentário sobre Senna que não seja a louvaminha pura e simples, ele começa a falar ou escrever um monte de despautérios.
Camarada, sou daquele tipo que dá um boi para não entrar numa briga e uma boiada para sair dela. Mas em alguns momentos esses tipos como os descritos acima já aparecem querendo comprar briga e dando petelecos. Em geral, não tenho saco para eles e realmente reajo com o tom de agressividade captado por você. Unicamente por ser a única linguagem que essa turma entende.
Com gente assim, não adianta ponderar. São irracionais e como tal devem ser tratados.
Abraços! (LAP)
Oi, pandini.
O Problema é encontrar o limite entre aqueles que acima você chamou de "lunáticos" e os que simplesmente curtem F1 e são fãs de Ayrton Senna.
Infelizmente, para alguns, parece que ser fã de Senna é sinônimo de imbecilidade, e considerá-lo melhor que Schumacher é a mesma coisa que sair às ruas dizendo: "eu fui lobotomizado pela Globo!"
Quem curte Fórmula 1 e considera Senna o melhor da categoria é automaticamente um doente mental?
Não creio.
Eu, de minha parte, tenho verdadeiro asco pelo que fazem com a imagem dele - esse ano, Faustão, no aniversário de 50 anos por exemplo, me deixou irritado - mas continuo com a certeza de que ele foi o mais rápido e sensacional piloto que o mundo já viu.
Ele podia pegar qualquer carro e fazê-lo render ao máximo (não estou dizendo que ele seria campeão mundial com uma Force India) em pouco tempo - menos tempo que qualquer piloto.
Acho que esse foi o diferencial de Senna para todos os outros.
Espero não ser chamado de viúva por pensar assim.
Um abraço!
Carlos - Belo Horizonte/MG
Oi, Panda.
Apenas para finalizar tudo que eu já disse (e agradecendo por suas respostas, e prometendo não encher mais o saco):
Semana passada estive em São Paulo para assistir o show de Paul McCartney. Fantástico, o melhor da minha vida.
Mas uma coisa me chamou a atenção: ouvi de muitos fãs, principalmente os mais jovens, coisas que giravam em torno do seguinte: "O Paul é o melhor; o John Lennon só é mais lembrado e mais celebrado porque morreu de forma trágica, ainda jovem".
Será mesmo? Acredito que não.
Para mim, John Lennon era o melhor porque ele tinha as melhores ideias na música, era mais visionário e suas letras eram mais vivas, mais reais, mais apaixonadas - mesmo as não românticas.
Digo isso mesmo reconhecendo o Paul McCartney como "mais artista" (pois seus shows são muito mais interativos, mais criativos, mais atrativos por assim dizer) e mais completo musicalmente (excelente instrumentista, melodista), em comparativo a Lennon.
Talvez o mesmo se dê na F1, com Senna e Schumy: "Schumacher - ou Piquet, ou outro - é o melhor; o Senna só é mais lembrado e celebrado porque morreu de forma trágica, ainda jovem".
Isso faz sentido numa análise sociológica, naquela coisa de popularidade da F1, principalmente no Brasil. Mas me nego vêemente a crer que engenheiros, (ex-)chefes de equipe e (ex-)pilotos sejam acometidos por "paixão", "idolatria", "emoção" ou como queira chamar, quando se trata de avaliar um profissional e seus feitos na pista.
A morte trágica ou a Globo não fariam gente como Lee Gaug ou Ricardo Divila passarem a considerar Senna melhor do que ninguém.
É o que eu acho.
Um abração!
Nada a ver comparar Senna com John Lennon. Este último sim foi um verdadeiro ícone e não rpecisava de mídia.
E as opiniões citadas, Ricardo Divila é até bom, mas é brasileiro, então, é sim influenciado. Agora, Lee Gaug? O Famoso quem que eu nunca ouvi falar? Sobre Schumacher, gente muito melhor já falou!
boas!
mas quanta paranoia pandini!! - entao seriam que os ingleses pagos pela globo/senna como o galvao e reginaldo?
ah essa esquerda "sexy"... pfff.
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