UM POUCO DE MÚSICA PARA VARIAR: "UMA NOITE EM 67" E SÉRGIO RICARDO CANTANDO "BETO BOM DE BOLA"
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Os vitoriosos intérpretes de "Ponteio": Marília Medalha, Edu Lobo e os rapazes do grupo Momento Quatro. Um de seus integrantes, Ricardo Vilas, aparece com expressão séria, ao lado de Edu. Dois anos mais tarde, ele seria um dos presos políticos libertados após o sequestro do embaixador estadunidense Charles Burke Elbrick.
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Gilberto Gil cantando "Domingo no Parque", a segunda colocada do Festival. Fora da foto, à esquerda de Gil no palco, estavam os então desconhecidos Mutantes - Rita Lee, Arnaldo Baptista e Sérgio Dias.
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Chico Buarque partilhando um único microfone com Magro, Aquiles, Dalmo e Miltinho - os rapazes do MPB4 - na interpretação de "Roda Viva", terceira colocada.
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Caetano, acompanhado pelos argentinos do Beat Boys, leva "Alegria, Alegria" ao quarto lugar.
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Roberto Carlos, quinto colocado, cantou "Maria, Carnaval e Cinzas", de Luiz Carlos Paraná.
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Sérgio Ricardo, vaiado ao cantar "Beto Bom de Bola", perde as estribeiras...
...e quebra o violão para, depois, atirá-lo na plateia.
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Os últimos tempos tem sido excelentes para quem, como eu, gosta de cinema nacional. Fãs de documentários, então, não podem se queixar. "Cidadão Boilesen", "Caro Francis" e "Dzi Croquetes" foram alguns dos que assisti no cinema nos últimos meses, depois de ver e rever "Hércules 56" no DVD. E, domingo passado, consegui finalmente ver "Uma noite em 67", sobre a final do marcante III Festival de Música Popular Brasileira promovido pela TV Record.
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Para quem nasceu depois e nunca se inteirou muito da história dos festivais dos anos 60, é preciso explicar que eles tinham enorme repercussão na época. E revelaram ou amplificaram a obra de muita gente que até hoje é referência na música brasileira - as fotos aí em cima não deixam mentir. O Festival da Record de 1967 é considerado por Zuza Homem de Mello (expert em qualquer coisa que diga respeito a música e autor do livro "A Era dos Festivais", obra definitiva sobre os festivais de MPB promovidos por emissoras de TV) como o auge da era dos festivais.
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Dito isso, fica explicada a razão de os diretores Renato Terra e Ricardo Calil se interessarem em produzir um documentário cujo fio condutor (a final do Festival da Record de 1967) resulta em uma fotografia de um dos momentos mais efervescentes da música brasileira. Quem nunca estudou o assunto tem uma boa oportunidade de conhecer uma parte do significado da década de 1960 na música brasileira. Quem acreditava ter esmiuçado tudo o que existia a respeito, como é meu caso, é agradavelmente surpreendido por ver cenas menos difundidas dos festivais.
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Vistas mais de quarenta anos depois, as entrevistas feitas por Randal Juliano, Cidinha Campos e Reali Júnior em pleno palco acabam resultando hilárias. Pelas perguntas, depreende-se que os entrevistadores consideravam que os artistas tinham toda uma elaborada filosofia e técnica por trás daquele modo então novo de fazer música. As respostas mostram que não havia nada disso: aqueles jovens de vinte e poucos anos eram apenas músicos talentosos e cheios de vontade de mostrar sua arte. Os Mutantes eram completos desconhecidos - Randal Juliano precisou perguntar "Qual é o seu nome?" a Arnaldo Baptista antes de fazer a primeira pergunta ao integrante da banda que acompanhou Gilberto Gil em "Domingo no Parque".
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Entrevistados especialmente para o documentário, os artistas revelaram boas histórias mas pouco tiveram a acrescentar, em termos filosóficos, sobre o Festival da Record de 1967. Compreensível: eles passaram estas mais de quatro décadas trabalhando, criando, produzindo - e não olhando para o passado. Como costumo dizer, eventos artísticos e esportivos são muito mais marcantes para os espectadores do que para seus protagonistas. Nós, aqui do lado de fora, guardamos fascinados na memória os efêmeros instantes no palco, na pista, no pódio - tudo devidamente compartimentado por data, local, evento, resultado e outros critérios. Para eles, tudo isso é apenas parte de um trabalho ininterrupto. Como um dia no escritório, para as pessoas "normais".
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Os diretores Terra e Calil foram bastante felizes ao enfocar no documentário as cinco músicas mais bem colocadas no festival. Mas uma sexta não poderia faltar: "Beto Bom de Bola", de Sérgio Ricardo. A história é mais do que conhecida: diante de um público que usava os festivais de música como catarse para protestar contra a ditadura civil-militar instaurada em 1964, Sérgio foi hostilizado por ousar apresentar uma canção sobre um talentoso jogador de futebol, esquecido e abandonado no ocaso de sua carreira. As vaias foram tão intensas que Sérgio Ricardo perdeu o controle: parou de cantar, quebrou o violão e jogou-o contra o público.
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Este episódio marcou profundamente a carreira de Sérgio, autor de belas obras como a trilha sonora do filme "Deus e o Diabo na Terra do Sol", de Glauber Rocha. Gerou também uma das melhores manchetes capciosas já publicadas em um jornal: "Violada na platéia" (desculpem os puristas da língua portuguesa, mas aqui eu prefiro usar a grafia da época), segundo algumas fontes, ou "Violada em pleno auditório", segundo outras. Muitos atribuem a publicação da tal manchete ao jornal paulistano espreme-sai-sangue "Notícias Populares", mas o livro "Nada mais que a verdade", de Celso de Campos Júnior, desfaz a lenda: o NP nunca publicou essa manchete. Ela teria saído em "Última Hora" ou em "O Dia" (fico à espera de alguém que possa confirmar a informação correta, de preferência com prova documental).
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O You Tube está repleto de cenas do filme e do próprio festival. Destaco duas. Uma, que não poderia faltar, é Sérgio Ricado cantando "Beto Bom de Bola" antes de jogar o violão no público. A outra, que certamente estará nos extras do DVD, mostra Sérgio cantando "Beto Bom de Bola" pela primeira vez depois daquela "noite em 67".
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Uma nota pessoal. A "violada na plateia" produziu um efeito sem consequências na minha vida. Eu sequer havia sido concebido, mas já estava nos projetos de meus pais - e Sérgio Ricardo era o nome masculino mais cotado para o filho caçula de Cecília e Edmundo. Aquela "noite em 67" provocou uma mudança de planos. Preocupado com uma eventual associação do nome da criança a um fato de repercussão negativa, o casal escolheu outro nome composto: Luiz Alberto. Fina ironia: desde pequeno, familiares e amigos sempre me chamaram de "Beto" - mas, no meu caso, nunca fui "bom de bola".
.PS - Urariano Mota dá sua visão sobre "Uma noite em 67" no Direto da Redação. Vale a pena ler.
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Marcadores: Caetano Veloso, Chico Buarque, Edu Lobo, Gilberto Gil, memórias, Mutantes, Roberto Carlos, Sérgio Ricardo, Um pouco de música para variar, Uma noite em 67










5 Comentários:
Pô Sérgi... digo... Pandini...
Mas é uma bela dica mesmo esta ai... Sempre vejo na Record News as imagens e até mesmo no youtube.
Este festival foi o melhor de todos os festivais. Onde tudo aconteceu.
E o Sério Ricardo infelizmente ficou estigmatizado por este episódio.
Sua carreira tem muito boas musicas, e só lembram dele por conta disto.
Grato pela referência, Pandini, mas sou mesmo UraRiano, algo como um ser nascido em Urari, nunca em Urano.
O engano é comum - culpa deste nome.
Abraço.
Grato pela correção, Urariano. Confesso que sempre li, automaticamente, seu nome como "Uraniano". Grande abraço! (LAP)
Master Pandini,
Suas exumações me levam aos meus melhores-piores momentos em terras brazucas. O festival de 67 amaciou nossa sede de pura vingança aos q pisaram, com suas botas imundas, a Constituiçao Brasileira da época. Depois da doçura veio a tortura, nosso banimento e a saudade eterna do melhor país do mundo p se viver, palavra de um belga. Brazucas devem se orgulhar muito, conseguiram superar o sofrimento ditatorial através de seus artistas e intelectuais. Parabéns a todos, país & brazucas.
Saudações belgo-monarquistas
carlo paolucci
Até novembro deste ano, tive o prazer de trabalhar com a Adriana Lutfi, uma das filhas do Sergio Ricardo na agência onde estou agora. Pessoa muito bacana e excelente profissional.
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