Achille Varzi e um bilhete da "lotteria" do GP de Tripoli de 1933: um escândalo de muito maiores proporções...
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...do que o protagonizado e denunciado por Nelsinho Piquet. .
Antes que me perguntem: não tenho a menor idéia do que vai acontecer com a Renault ou com a carreira de Nelsinho Piquet. Também não tenho a menor vontade de dar palpites. No começo deste ano, muita gente especulou sobre o destino de Hélio Castro Neves ("Castroneves" é para estadunidense escrever). Quase ninguém apostou naquele que seria o veredito final - ou seja, inocente.
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Há quem aposte que Nelsinho jogou a carreira no lixo ao delatar sua ex-equipe. É bem provável, mas não considero definitivo. Se nenhuma equipe se interessar em dar um cockpit a Nelsinho, acho mais prausível que seja pelo que (não) mostrou em seu ano e meio de F1 do que por ter denunciado o plano armado por Flavio Briatore e Pat Symonds.
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O "escândalo" de Nelsinho não foi o primeiro e não será o último. Pode, no máximo, ser o primeiro da história da F1 a ser denunciado pelo próprio piloto. Muitos outros ficaram debaixo do tapete. É a mesma crença que manifestei dois anos atrás, por ocasião do escândalo da espionagem da McLaren sobre a Ferrari.
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Não pensem que armações desse tipo são novidade. A maior manipulação de um resultado de corrida aconteceu no longínquo 1933, fase que muita gente chama de "romântica". Naquele ano, o resultado do GP de Tripoli foi fruto de um arranjo entre todos os pilotos participantes - a elite dos Grand Prix - e não de uma atitude isolada de um único piloto. E é com o pretexto de resgatar essa história que inauguro mais uma seção neste blog: "Baú do Pandini". Nela, republicarei reportagens, artigos e colunas publicadas em outros tempos em jornais, revistas e sites. Não serão necessariamente transcrições literais. Alterações poderão ser feitas para atualizar ou completar informações ou eliminar erros e redundâncias de qualquer espécie.
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Com vocês, o escândalo do GP de Tripoli de 1933. Divirtam-se!
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ESCÂNDALOS!
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Muito do relato a seguir foi publicado na revista brasileira Auto Esporte número 16, de fevereiro de 1966. O texto foi escrito por Antônio Carlos Scavone, que se tornaria organizador e promotor das temporadas internacionais de F-Ford, F 2 e F 3 realizadas no Brasil entre 1970 e 1972, e dos GPs do Brasil de F 1 de 1972 e 1973. Scavone foi um dos mortos no famoso acidente do avião da Varig no aeroporto de Orly, na França, em julho de 1973. Seu desaparecimento prematuro privou o automobilismo brasileiro de um personagem que poderia ter contribuído com enormes avanços na área promocional.
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Em seu artigo, Scavone esclarece que boa parte do conteúdo foi extraído de um capítulo do livro “Speed was my life” (“A velocidade foi minha vida”), escrito por Alfred Neubauer, o chefe da equipe de competições da Mercedes-Benz entre as décadas de 1930 e 1950. O capítulo em questão tem o sugestivo título “The race that was rigged” (“A corrida que foi fraudada”).
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Em 1933, a Líbia era uma colônia da Itália. A autoridade máxima da colônia era o marechal Italo Balbo. Decidido a divulgar o “império romano” sonhado pelo ditador Benito Mussolini, Balbo decidiu promover um Grand Prix na capital, Tripoli, onde algumas corridas vinham sendo organizadas desde 1925. O traçado era um dos mais rápidos do mundo: mais de 13 km de extensão, permitindo velocidades de mais de 200 km/h. A pista contornava um oásis no deserto de Mellaha e tinha longas retas, algumas curvas bem abertas para a direita e leves desvios para a esquerda, feitos a plena aceleração.
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No segundo semestre de 1932, foi anunciada a criação de uma loteria para o GP de Tripoli do ano seguinte, que seria disputado em 7 de maio. Bilhetes foram vendidos por toda a Itália ao preço de 11 ou 12 liras (minhas fontes divergem sobre esse aspecto). Três dias antes da corrida, foram sorteados 30 bilhetes, cada um representando um piloto. O prêmio maior, é claro, seria destinado ao portador do bilhete que correspondesse ao piloto vencedor. A título de curiosidade, lembro-me que, no começo da década de 1980, o governo brasileiro promovia uma loteria idêntica aproveitando o GP do Brasil de F 1.
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Encontrei números diferentes sobre a quantia que seria paga ao vencedor. No livro de Neubauer, consta 7.500.000 liras. Mas Don Capps, colunista do site AtlasF1, detalha que 1.200.000 liras ficaram com o Automóvel Clube de Tripoli para pagamento de despesas; 550.000 liras foram destinadas a pagar prêmios de largada e chegada; e 6.000.000 de liras pagariam os prêmios aos portadores dos bilhetes correspondentes aos três primeiros colocados (3.000.000 para o vencedor, 2.000.000 para o segundo e 1.000.000 para o terceiro colocado). Seja como for, aponta Don Capps, “não era pouca coisa em 1933”. A proporção entre os valores do bilhete e do prêmio não deixa dúvidas quanto a isso.
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Na noite anterior à corrida, o piloto italiano Achille Varzi, um dos grandes astros da época e um dos favoritos à vitória, foi procurado em seu hotel (onde ficavam praticamente todos os participantes) por um senhor baixo e careca. O homem apresentou-se como sendo Enrico Rivio, comerciante de madeira da cidade de Pisa. Varzi estava acompanhado por sua namorada (jovem e muito bonita, descreve Neubauer). O senhor Rivio afirmou que precisava conversar a sós com Varzi, e ela se retirou. Rivio explicou então que estava ali para pedir a Varzi que vencesse a corrida do dia seguinte.
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“Não é difícil imaginar a reação de Varzi”, escreveu Neubauer. “Ele deve ter ficado surpreso com o fato de o sr. Rivio ter viajado de Pisa para Tripoli para fazer-lhe um pedido tão óbvio.” Mas em seguida Rivio mostrou ao piloto o bilhete da loteria com o número que correspondia ao de seu carro. E em seguida entregou-lhe um documento em que se comprometia a dar a Varzi metade do valor do prêmio. Varzi, surpreso, agradeceu e prometeu “ver o que poderia fazer”. Sabe-se que, tão logo o sr. Rivio deixou o quarto, Varzi telefonou a Tazio Nuvolari.
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Dia seguinte, 7 de maio de 1933. Uma tribuna especial foi montada para 30 pessoas – os portadores dos bilhetes sorteados. Entre eles, claro, estava o sr. Rivio. O governador Italo Balbo baixa a bandeira da Itália (a largada era sempre dada com a bandeira nacional, ou com uma bandeira quadriculada nas cores nacionais; somente em meados da década de 1970 seria introduzido o sistema de luzes). Era o início da maior farsa registrada na história das corridas de automóvel. Nuvolari, Baconin Borzacchini e Giuseppe Campari assumem as três primeiras posições, seguidos por Louis Chiron, Luigi Fagioli, Henry Birkin e Piero Taruffi. Varzi tem problemas em sua Bugatti e fica para trás, mas isso não parece aborrecê-lo.
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Na quinta volta, Campari (que atuava como tenor no teatro La Scala, em Milão, e era sobrinho do fabricante do vermute Campari) assume a liderança, seguido por Nuvolari e Birkin. Varzi já estava quase um minuto atrás. Duas voltas depois, Campari entra nos boxes sem qualquer sinal aparente de defeitos em seu carro. Os mecânicos abrem o capô, mas um irritado Campari comunica sua desistência. Minutos depois, é visto sentado em um canto do box bebendo vinho chianti, sem qualquer sinal de inconformismo.
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Na 20ª volta, Nuvolari lidera seguido por Borzacchini, Chiron, Birkin, Giorgio Battilana e Taruffi. Logo depois, Varzi aparece em 7º e na 25ª volta é o 3º. Passa à frente de Chiron e Birkin, mas seu carro tem defeitos de distribuição. O som do motor indicava que dois cilindros não estavam funcionando. O mais lógico seria parar para uma troca de velas e, mesmo perdendo de três a cinco minutos, tentar uma recuperação. Mas Varzi decide continuar em frente, mesmo com o carro falhando. Pode-se imaginar a agonia do sr. Rivio naquele momento.
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No final da 27ª das 30 voltas, a multidão grita o nome de Nuvolari. Borzacchini diminui a velocidade e olha para trás, procurando a Bugatti azul de Varzi. Entra mal em uma curva, sai da pista, bate em um tambor de óleo vazio (usado para demarcar a pista) e desiste da competição. Não aparenta qualquer sinal de contrariedade.
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Nuvolari entra na última volta com 30 segundos de vantagem sobre Varzi. Quando aparece na reta de chegada, a multidão começa a se calar: o Alfa Romeo vai perdendo velocidade até parar a 300 metros da bandeirada. Nuvolari sai do carro e vai para o meio da pista, berrando e acenando freneticamente para seus mecânicos: “Estou sem gasolina! Estou sem gasolina!”. Os mecânicos correm com latas de gasolina e as esvaziam no tanque do Alfa. Enquanto isso, surgem Varzi e Chiron liderando um grupo de carros, todos andando lentamente. O público volta a respirar fundo quando Nuvolari parte para terminar a corrida. Recebe a bandeirada apenas uma roda atrás de Varzi. A empolgação geral faz esquecer que Chiron estava uma volta atrás. O 3º lugar é da Maserati de Birkin, seguido pelas Alfa Romeo de Battilana e Taruffi. Varzi, exausto, sai carregado do carro e recebe seu prêmio. Um dos primeiros a dar-lhe parabéns é um senhor careca e baixo que ninguém conhecia – Enrico Rivio, é claro. A média do vencedor é de 163 km/h, enquanto que nos treinos o mais rápido fez 215 km/h e o mais lento, 185 km/h.
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Naquela mesma noite, Varzi, Nuvolari e Borzacchini tomavam champanhe (a mais cara disponível) no restaurante do hotel. Enquanto isso, começam os rumores. Na manhã seguinte, os jornais especulavam sobre uma possível fraude na loteria. A coisa assume proporções de escândalo e as autoridades esportivas locais reúnem Varzi, Nuvolari, Borzacchini, Campari, Birkin, Chiron e Battilana. O presidente da comissão abre os trabalhos acusando diretamente “certos pilotos” de terem feito antes da corrida um conluio para facilitar a vitória de Varzi. Um dos dirigentes pergunta quem seriam esses pilotos. O presidente cita Varzi, Nuvolari e Borzacchini, lançando ainda “fortes suspeitas” sobre Campari e Chiron.
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A intenção inicial era desclassificar todos e cassar suas licenças. Fez-se silêncio na sala: eram os melhores pilotos da Europa, e uma medida dessas significaria acabar com as competições internacionais, tanto pela desmoralização do esporte quanto pelo afastamento dos grandes nomes. Todos foram somente advertidos. O sistema da loteria, porém, foi modificado: do ano seguinte em diante, os 30 bilhetes passaram a ser sorteados minutos antes da largada, com os pilotos já sentados em seus carros.
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