O texto abaixo, de autoria do experiente jornalista Mauro Santayanna, foi publicado no Jornal do Brasil por ocasião da abertura do Fórum Social Mundial, em Belém (PA). Está disponível no site do Ministério das Relações Exteriores, foi copiado pelo Luiz Carlos Azenha e, agora, por mim. É um ótimo contraponto à visão da "grande mídia" sobre certos fatos..***OS RICOS VOLTAM A DAVOS, mas não carregam a arrogância de antes. O mundo que nos prometiam estava alicerçado na lama da privatização, das subprimes, dos derivativos. Até o ano passado, as vicissitudes financeiras eram atribuídas a operadores menores do mercado. Prevalecia a idéia de que os grandes rombos eram acidentais, resultado de descuido dos controladores das instituições financeiras, ou de fenômenos inesperados e incontroláveis. Agora, os grandes responsáveis se encontram nus. Livres do controle dos Estados nacionais e protegidos pelos governos, muitos dos grandes banqueiros do mundo se haviam tornado meliantes comuns. Logo que a crise estourou, registramos, neste mesmo espaço, que o jogo dos derivativos lembrava, entre outras, a famosa crise do encilhamento, no Brasil, no fim do século 19. Uma febre de falsa industrialização tomou conta do país, com o surgimento de dezenas de grandes empreendimentos, que só existiam na fértil e desonesta imaginação de alguns. Da venda de ações sem lastro em qualquer tipo de bens, passou-se às "correntes", muitas delas operadas em bancas de camelôs nas ruas, nas quais se pagava ao apostador antigo com dinheiro do apostador novo.
.Só o fundo gerido por Bernard Madoff, o criador do índice Nasdaq, lesou os investidores em mais de 50 bilhões de dólares no mesmo processo criminoso. A diferença é que a sua banca estava montada em Wall Street, e a sua ação envolvia o mundo inteiro. Ele e outros, de seu mesmo clube, não estarão em Davos. Alguns, como é o seu caso, por se encontrarem impedidos de viajar, sob investigação criminal, com pulseiras eletrônicas de vigilância e prisão domiciliar. Outros, por não terem explicações a dar sobre os truques empregados para surrupiar trilhões de dólares e afundá-los nas profundidades do Triângulo das Bermudas, entre os sargaços e os paraísos fiscais.
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Em Belém se inicia mais uma reunião do Fórum Social Mundial, que, desde 2001, em Porto Alegre, vem sendo o contraponto ao encontro de Davos. Visto com desdém, no início, o Fórum dos pobres, ao reunir-se este ano no Pará, mostra como suas teses são válidas diante da experiência histórica. Como podiam prever os organizadores do encontro, em que se destacavam os jornalistas Ignácio Ramonet e Bernard Cassen, de Le Monde Diplomatique, o neoliberalismo se confirmou como mero expediente de larápios.
.Não foram apenas ladrões do dinheiro de investidores e dos acionistas que lhes foi confiado. Eles começam a ser responsáveis também pela morte direta de algumas pessoas. Na antevéspera de Natal, o aristocrata francês René-Thierry Magon de Villehuchet suicidou-se em seu escritório de Nova York: fora intermediário da aplicação de 1,4 bilhão de dólares de seus clientes nos fundos administrados por Madoff. No campo dos pobres, a sega de vidas é bem maior.
.Em Los Angeles, sede da indústria cinematográfica que disseminou o american dream para o mundo inteiro, o trabalhador hospitalar Erwin Lupoe, 40 anos, matou terça-feira suas três filhas e seus dois filhos e a mulher, depois de o casal ter sido despedido da clínica em que trabalhava. Erwin, em seu bilhete dirigido a whom it may concern, explica que não podiam deixar os cinco filhos três meninas e dois meninos, a mais velha de 8 anos nas mãos de outras pessoas. Não deixar os filhos com os outros foi também a preocupação de muitas mães de família de Gaza, diante do massacre executado pelo Exército de Israel. Uma delas confessou que dormiam todos ela, o marido e os numerosos filhos em um só quarto, para que morressem juntos, se fossem atingidos. A morte de toda a família era, para essas mães, o último refúgio, a última esperança. As autoridades californianas estão preocupadas: o caso de Lupoe (assassinato de família inteira seguido de suicídio) é o quinto, em um ano, naquele estado o mais rico da América do Norte.
.O Fórum de Davos é o inventário de um mundo que se dissolve. Ele nada tem a dizer, e melhor seria que não voltasse a reunir-se. O luxo e a ostentação daquele convescote nos Alpes é ofensa também aos milhares que morrem, hoje, na África, massacrados pelos conflitos tribais provocados pela miséria e pelos dizimados pelas epidemias, como o cólera. O Fórum de Belém, ao reunir os excluídos do planeta e alguns poucos intelectuais solidários, pode ser a promessa de um mundo mais justo, o único possível.