UM FENEMÊ E MUITAS LEMBRANÇAS
Quem tem a minha idade (safra 1968) certamente se lembra de ter visto pelas ruas "fenemês" como o da miniatura acima, feita pela Automodelli. "Fenemê", para quem é - digamos assim - jovem demais, era o apelido carinhoso dos caminhões da FNM, Fábrica Nacional de Motores, a estatal que fazia também o sedã de luxo Alfa Romeo 2000 - outro que ganhou apelido carinhoso: JK.
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Ver estes caminhões faz lembrar das viagens pela via Anchieta (a Imigrantes ainda não estava pronta) entre Santos, onde morávamos, e São Paulo, onde viviam meus avós maternos. Meu pai tinha um Fuscão azul-pavão com estofamento gelo. A formação era sempre a mesma: ele dirigindo, minha mãe ao lado, eu atrás dela (de joelhos e com o cotovelo apoiado no encosto do banco da frente) e minha irmã dormindo. Cinto de segurança? Não se usava - nem nós, nem ninguém. Andávamos a 100 km/h, o limite da estrada - pouco abaixo da velocidade máxima do Fuscão.
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Silenciosamente, eu ia vivendo a preocupação de pegar neblina no meio da serra, o incômodo dos ouvidos "tampados" pela diferença de pressão atmosférica e o medo da "curva da onça" (um famigerado viaduto na pista descendente). E prestava atenção às referências visuais que marcavam o estágio de cada viagem. Na ida, as refinarias de Cubatão, o pé da serra, as fábricas do ABC. Na volta, quase sempre feita nos domingos à noite, o fim do trecho iluminado da estrada, os letreiros que se destacavam na noite ao cruzar a represa Billings (Cantina Leão de Ouro, Cantina do Pintor, Cantinho do Luiz), o pedágio. Já na serra e quando o tempo permitia, éramos premiados com a maravilhosa visão da Baixada Santista, lá embaixo. Na ida e na volta, era obrigatória uma olhada nas fábricas da Volkswagen e da Karmann-Ghia.
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Chegando a São Paulo, parávamos o carro na rua. Sempre havia lugar exatamente em frente à casa de meus avós, como se aquele espaço da rua estivesse especialmente reservado para o ilustre Fuscão azul-pavão vindo de Santos. Isto acontecia em plena rua Cayowaa, 527, em Perdizes. O carro não tinha travas nem alarmes, mas "os adultos" não tinham qualquer preocupação com roubos. Situações inimagináveis hoje. Parece inacreditável que, menos de quatro décadas atrás, São Paulo ainda fosse algo parecido com uma cidade tranqüila.



4 Comentários:
Pois é, eu me lembro que há 27 anos atrás, quase nao passava carros na rua para a qual eu me mudei em Perdizes. Hoje, ela é uma importante via de ligacao entre a avenida Sumaré e a Cardoso de Almeida. E já roubaram o carro do meu irmao nela (aliás, Perdizes é hoje o bairro campeao de furto de carros, por causa da PUC).
Mas SP, no fim dos 70, início dos 80, era uma delícia!
Deprimentemente deliciosa a sua memória.
Genial!
As coisas mudam muito rapido mesmo Panda .
Mas esse FNM eram lindos ,o problema era a fumaça .
Jonny'O
Que coisa. Eu morava na Ministro Ferreira Alves (não lembro o número)bem pertinho. Como a minha safra é mais antiga (47), Tenho mais algumas memórias, inclusive uma derrapada na curva do Onça e batida com a lateral no guard rail.No mais são as lembranças de todos que tiveram o privilégio de viver numa cidade grande onde a vida corria mais mansa. Só que, hoje faço o caminho inverso. Eu moro em Santos.
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